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Dylan Dog Omnibus – A Beleza do Demônio

Publicado no Brasil pela Record em 1991.

“A Beleza do Demônio” é a sexta história do Omnibus de Dylan Dog lançado pela Editora Mythos. Concluindo a série de matérias especiais que a Confraria Bonelli preparou para este material com o intuito de aprofundá-la através das várias referências ao cinema e à cultura geral presentes na obra de Tiziano Sclavi.

Para cada matéria foi criado um cartaz de filme, do qual tem alguma relação com a história mencionada. Em “A Beleza do Demônio”, o cartaz foi inspirado no do filme “A Beleza do Diabo” (1950), de René Sinclair.

Dylan Dog – A Beleza do Demônio. Publicado originalmente em Dylan Dog – La bellezza del Demonio de 1º de março de 1987. Roteiro de Tiziano Sclavi, arte de Gustavo Trigo e capa de Claudio Villa.

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Larry Varedo era o melhor assassino profissional antes daquele fatídico dia em 1945. Um assassino frio e calculista, mas quando lhe contratam para matar Mala Behemoth, seu gelo derrete. Ela era tão linda, inatingível, quase como um fantasma ou.. um demônio! Dylan Dog irá precisar mergulhar nas areias do passado e até mesmo alcançar as profundezas do inferno para poder encontrá-la para Larry.

Claudio Villa retrata na capa um demônio visto de costas. Este demônio poderia ser inspirado em O Senhor das Trevas, interpretado por Tim Curry em “A Lenda” (1985), filme de Ridley Scott estrelado por Tom Cruise.

O título da obra, como mencionado no editorial da edição original, é inspirado em “A Beleza do Diabo” (1950), de René Sinclair. O filme é uma adaptação cinematográfica do poema trágico Fausto, de Goethe. Fausto é mencionado na história: “Eu chamo o Diabo, e ali está ele, parece até aquele romance… como se chamava? FAUSTO”.

Nessa obra, o personagem Mefistófeles (o diabo) aposta com Deus que Fausto tem um preço para a sua alma, como qualquer outro humano. Assim, Mefistófeles faz um trato com Fausto: satisfará todos os seus desejos em troca de sua servidão após a morte.

O clássico detetive noir

Jerry Lace, o homem com o rosto de Humphrey Bogart.

O assassino profissional, Larry Varedo é inspirado em muitos personagens do cinema e da literatura noir. Porém a referência mais próxima pode ser Luca Torelli, o Torpedo. Personagem da série em quadrinhos de Enrique Sánchez Abuli com desenhos de Alex Toth e Jordi Bernet. Torpedo foi publicado no Brasil pela Editora Figura e pela JBraga.

A natureza fantasmagórica de Larry também pode se referir ao Humphrey Bogart interpretado por Jerry Lacy em “Sonhos de um Sedutor” (1972) de Woody Allen. Neste filme, o crítico de cinema Allan (Woody Allen) entra em depressão depois que sua esposa o abandona. Ele busca consolo nos filmes que ama enquanto imagina Humphrey Bogart (Lacy) lhe dando conselhos de como lidar com as mulheres, sendo que estes conselhos são desprovidos de qualquer sutileza. Seu amigo Dick e a esposa Linda o encorajam a conhecer novas mulheres, mas com a sua personalidade frágil nenhuma tentativa funciona. Tudo piora quando Allan começa a ter sentimentos por Linda, passando a se sentir culpado.

O sobrenome, Varedo, vem de um município da Lombardia, na província de Monza e Brianza, não muito longe de Broni, cidade natal de Tiziano Sclavi. Na página 9 Varedo usa a palavra “Pula”, uma gíria usada na Itália para se referir à Polícia Estadual. Além disso, o nome da protagonista feminina, Mala, refere-se tanto ao conceito de mal, quanto à gíria para “submundo” do crime.

É daí que surgiram as tais “Canzoni della mala”, ou Canções do Submundo, na Itália. Um repertório popular de canções que apresentam canalhas, policiais, criminosos, presos, etc…. Idealizadas por volta de 1957/59 por Giorgio Strehler, com alguns autores de prestígio, entre eles a cantora Ornella Vanoni que levou estas canções ao sucesso.

Amor de mãe

Henry Travis como Clarence Oddbody.

O homenzinho, o pobre diabo que contrata Varedo apenas para se arrepender, chama-se Clarence Oddbody, exatamente como o anjo enviado por Deus a George Bailey, interpretado por James Stewart no filme de 1946, A Felicidade Não Se Compra. No filme, Clarence é um espírito candidato a anjo que recebe a missão de ajudar um homem muito valoroso, porém desiludido. George Bailey está à beira do suicídio quando é salvo por Clarence, que lhe mostra como ele é importante na vida de muitas pessoas.

O cadáver embalsamado do homem é uma alusão ao filme “Psicose” (1960), de Alfred Hitchcock. Porém a mãe e o filho psicopata aqui estão com os papeis invertidos. A mãe obesa e possessiva de Clarence pode vir de vários personagens. Uma é a Mama Fratelli, de Os Goonies (1985), interpretada por Anne Ramsey, que terá papel semelhante em “Jogue a Mamãe do Trem” (1987), com Danny Devito e Billy Cristal.

Anne Ramsay como Mama Fratelli em Os Goonies.

Na página 53 Dylan cita um dos famosos aforismos de Oscar Wilde: “Nada do que realmente acontece tem a menor importância.

A música que Dylan ouve em seu estúdio, na página 63 é Phantom’s Theme, de Paul Williams. Música que faz parte da trilha sonora do filme “O Fantasma do Paraíso” (“Phantom of the Paradise”, 1974) de Brian de Palma.

Por sua conta e risco

Behemoth, criatura presente na Bíblia.

A mulher que Varedo quer encontrar, Mala Behemoth, tem um sobrenome peculiar. Não é um dos nomes do diabo como Dylan menciona, mas sim uma gigantesca criatura lendária, mencionada, entre outras fontes, no Livro de Jó, na Bíblia.

Mala está hospedada no Hell’s Hotel (Hotel do Inferno), que fica na Rua do Paraíso, número 666 (número da Besta, segundo o Apocalipse de São João). Em outras palavras, entre o céu e o inferno.

Os demais sobrenomes presentes nas caixas de correio do condomínio onde Mala mora referem-se a escritores famosos: Burroughs, pode ser William S. Burroughs (autor de Junky e Almoço Nu), ou Edgar Rice Burroughs (criador de Tarzan e John Carter). Stevenson seria Robert Louis Stevenson (autor de A Ilha do Tesouro) e Conrad para Joseph Conrad (Coração das Trevas). Wilde para Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Gray).

O feitiço recitado para evocar Mala, “Saday Agios Other Agla Ischiros Athanatos”, é a parte final de um feitiço de evocação contido no manuscrito denominado Opération des Sept Esprits des Planètes, guardado na Biblioteca do Arsenal, em Paris.

A invocação completa diz… leia por sua conta e risco:

“Eu te conjuro, N… (nome do demônio invocado), em nome do grande Deus vivo que criou o céu e a terra e tudo o que neles está contido e em nome de seu único Filho, redentor da raça humana, e do Espírito Santo, consolador benigno, e pelo poder do Empíreo Celestial, aparecer-me imediatamente e sem demora, e com uma aparência agradável, e sem ruído, e sem dano à minha pessoa e aos que me acompanham, e para que faça tudo o que eu lhe ordenar. Eu te conjuro, pelo Deus vivo, El, Ehome, Etrha, Ejel aser, Ejech, Adonay Iah Tetragrammaton Saday Agios outro Agla ischiros athanatos. Amém Amém Amém!”

Quando Dylan fala “Há quem diga que a vida de todo mundo é só um sonho”, ele pode estar se referindo a peça “A Tempestade” de Shakespeare, quando Próspero recita o famoso: “Nós também somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos; e nossa curta vida está contida no espaço de um sonho”.

Mas, mais provavelmente é apenas uma citação à peça teatral “A Vida é Sonho”, de Pedro Calderón de la Barca, que narra as aventuras de Segismundo, filho renegado de Basílio, rei da Polônia que ao nascer é trancado em uma torre. Seu único contato com o mundo externo é Clotaldo, seu guardião e fiel servo de seu pai.

Nosso Ariano Suassuna, intelectual, escritor, filósofo, dramaturgo, romancista, artista plástico, ensaísta, poeta e advogado brasileiro, autor de O Auto da Compadecida e que costumava usar camisa vermelha e blaser preto, em uma de suas várias palestras pelo Brasil já falou sobre esta obra:

“A Beleza do Demônio” lembra o filme “Coração Satânico” (1987), que parece ecoar por toda a história. Detetive, clima noir, sobrenatural, elevador com porta pantográfica idêntica… Porém, por ser lançado no mesmo ano da obra, dificilmente teve alguma influência na história de Sclavi, já que as histórias da Bonelli são sempre realizadas um ano antes. “Coração Satânico” é baseado no romance “Falling Angel” do escritor americano William Hjortsberg, também autor do roteiro de A Lenda, de Ridley Scott.

Na página 46, o último quadro faz uma alusão ao quadro “Lamentação sobre o Cristo Morto”, de Andrea Mantegna. O restante da página pode ser uma referência à obra de Alfred Kubin e Grandville, em particular “O Sonho de Crime e Castigo” de 1847.

“O Sonho de Crime e Castigo” de Alfred Kubin e Grandville.

O contraponto resultante do patriarcado

Sclavi nos traz uma discussão moderna e bem elaborada sobre o patriarcado usando as duas personagens femininas da história. A mãe e a sedutora. A primeira é amada, a outra desejada, mas nenhuma é respeitada como indivíduo. Ambos os papeis oprimem as mulheres e as reduzem ao aspecto da sua existência que serve para satisfazer apenas as necessidades dos homens.

Mala, a sedutora é literalmente um demônio. Fascina o assassino Larry, Clarence e naturalmente Dylan. “A Beleza…” é uma história policial noir, e Mala é a clássica Femme Fatale. Ela está na Terra pois foi “conjurada” em 1782 e está prestes a retornar ao inferno graças ao término do prazo da convocação. Sua aparência é belíssima, e seu rosto é desprovido de qualquer emoção. É um objeto, um prêmio a ser conquistado, e quando nega os homens, ela é demonizada por isso.

Sua antagonista é a mãe de Clarence. Uma mulher grande, obesa e feia. Por causa de seu amor possessivo e obsessivo, ela embalsamou o cadáver de Clarence quando ele morreu de câncer e fingiu que ele ainda estava vivo. Apesar de toda a dedicação e declarando todo seu amor pelo filho, ele a acusa de ser . “Seu amor me machucou. Me fez continuar sendo uma criança assustada. A culpa é sua mãe”, diz Clarence. Quais são as vontades da Sra. Oddbody? Seus sonhos, traumas, gostos ou sua história? Ela vive pelo seu filho e como indivíduo está reduzida à isso, como o papel de mãe que a sociedade patriarcal impõe.

O patriarcado é um sistema sociopolítico que coloca os homens em situação de poder, ou seja, o poder pertence aos homens. Com gênero masculino e a heterossexualidade como superiores em relação a outros gêneros e orientações sexuais. Por isso, é possível verificar uma base de privilégios para os homens.

Desta forma, o contraponto que Sclavi cria na história, da perseguida e linda Demônia, e da possessiva e cruel Mãe, e a relação delas com os homens da história reflete como a sociedade impõe valores, na maioria das vezes fruto do desejo dos homens, sem levar em consideração o desejo das mulheres.

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Dylan Dog Omnibus – O Despertar dos Mortos Vivos

Com chegada prevista para agosto, a Editora Mythos está lançando o Omnibus de Dylan Dog. 604 páginas que trazem as seis primeiras histórias do personagem. Histórias estas publicadas no Brasil em 1991 pela Editora Record e que já não se encontram facilmente. Apenas a primeira edição, “O Despertar dos Mortos Vivos” foi republicada pela Conrad em 2001.

Por isso, para este momento histórico do personagem no Brasil, a Confraria Bonelli irá publicar uma série de matérias especiais aprofundando mais estas histórias através das várias referências ao cinema e à cultura presentes na obra de Tiziano Sclavi, além de suas próprias referências pessoais que ele inseriu em Dylan Dog.

Especialmente no primeiro volume, existem além das referências para a história, as referências para a criação do personagem e seu mundo. Por isto este texto ficou muito, muito grande.

Para cada história foi criado um Cartaz de filme, do qual tem alguma relação com a história mencionada. Neste primeiro, por exemplo, é o cartaz original de “A Noite dos Mortos Vivos” (1968) de George Romero. As obras do diretor foram inspirações para todo o clima da primeira edição de Dylan Dog.

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Dylan Dog – O Despertar dos Mortos Vivos. Publicado originalmente em Dylan Dog – L’Alba dei Morti Viventi em 1º de outubro de 1986. Roteiro de Tiziano Sclavi, arte de Angelo Stano e capa de Claudio Villa.

O primeiro e lendário número de Dylan Dog abre com um prólogo cinematográfico impecável: Sybil Browning é perseguida e por pouco não escapa do seu falecido marido, que se tornou um zumbi. Ela consegue sobreviver ao ataque e procura a única pessoa que pode ajudá-la, um detetive que toca clarinete e cultiva uma paixão por monstros e mistérios. O Investigador do Pesadelo Dylan Dog, e seu inseparável assistente, Groucho. Juntos, os três investigam o porquê do marido de Sybil ter se tornado um zumbi e vão até a Escócia em busca de outro cientista: Xabarás.

Sclavi já nos apresenta muitas das características que o investigador carregará consigo durante boa parte de sua carreira. Descobrimos imediatamente que ele é vegetariano, irônico, autodepreciativo (mas sério nos momentos críticos), brilhante, tão imprudente que não separa seus relacionamentos profissionais dos particulares (ir para a cama com clientes é quase normal), pobre e cético (até certo ponto, ele é alguém que “não acredita, mas espera que sim”) apesar de sua profissão particular.

Tem uma exclamação típica: “Judas Dançarino!”. Que originalmente vem do jornalista Gianluigi Gonano, que traduziu histórias de fantasia e ficção científica para as edições Gamma, entre as quais estava Allamagoosa. Uma história de 1955 de Frank Russell cujo protagonista exclamava muitas vezes, precisamente: “Josafá Saltitante!”. Sclavi, entusiasta de ficção científica se inspirou nesta expressão para criar a de Dylan.

Cinéfilo apaixonado pelo gênero terror, Dylan também tem fama de charlatão, difundida pelos jornais ingleses. Ele dirige um Volkswagen Maggiolino Cabriolet (Fusca conversível) branco, e tem o hobby de construir um molde de um galeão que nunca termina. Seu honorário é de 50 libras por dia mais despesas (taxa ajustada no futuro).

E o nome? Dylan Dog (Dilan, não Dailan), foi criado por Sclavi quase que por coincidência. Dylan foi simplesmente retirado do nome do poeta galês Dylan Thomas. Já Dog, ao passar pela vitrine de uma loja, se impressionou com o título de um livro: “Dog figlio di”, de Mickey Spillane. Sclavi nunca chegou a comprar o livro e nem leu. O Investigador do Pesadelo originalmente deveria ser um detetive atormentado e durão que morava em Nova York, mas a equipe editorial da Bonelli estava em busca de ideias mais originais e pressionou Sclavi a refazer o roteiro. O resto é história.

A capa e os Mortos Vivos

Poster que inspirou Villa para Dylan n.1.

Na capa da primeira edição, mãos em primeiro plano, erguem-se do chão para agarrar um homem que se destaca e detrás dele a lua cheia. Atrás dele, outras figuras estão prestes a pegá-lo em um abraço mortal, são os mortos vivos ou zumbis. Uma situação desesperadora para o que viria a ser conhecido como Investigador do Pesadelo, mas que por enquanto nos é apresentado pelo título: Dylan Dog.

Os zumbis voltaram à moda com o diretor George A. Romero em 1968 em A Noite dos Mortos Vivos (Night of living Dead), e foi onde surgiu a inspiração para a capa, desenhada por Claudio Villa e que também é o responsável pela criação gráfica do personagem. Villa se baseia em um dos cartazes do filme. Porém, Sclavi tirou as referências para a primeira história de Dylan Dog do filme “Dawn of the Dead” (1978), o segundo de seis filmes em que se consiste a franquia dos mortos vivos.

Na Itália, o segundo filme é mais conhecido como “Zombi”. No Brasil, “O Despertar dos Mortos”. O primeiro filme, realizado com baixíssimo orçamento, foi um enorme sucesso e a sequência foi co-produzida pelo diretor italiano Dario Argento para a distribuição na Europa e Japão. Argento fez alterações substanciais ao filme, cortou muitos diálogos, reduzindo as cenas em cerca de dez minutos. Na música, creditou-se como autor, junto a banda Goblin, da qual participou de vários filmes de Argento. Dario, do qual Sclavi é muito fã, anos depois acabou até mesmo escrevendo uma história para Dylan Dog, “Prelúdio para Morrer”, publicado pela Mythos em 2019.

Na primeira edição de Dylan Dog, “Zombi” é mencionado explicitamente, além das várias homenagens ao longo da edição. Na página 29, Dylan, Sybil e Groucho estão no cinema, para assistir a um festival de cinema de terror. A página abre com uma sequência do filme de Romero, em que se pronuncia a frase mais famosa: “Quando não houver mais lugar no inferno, os mortos caminharão pela terra”. Além disso, Dylan, apaixonado por filmes de terror repreende Sybil: “Não se atreva mais a chamar os “Zombies” de Romero de lixo!”.

No Brasil isto se perde um pouco, devido às traduções. Na edição da Record, Dylan diz: “E nunca mais chame de nojeira o Zumbi de Romero!”. Enquanto que na edição da Conrad ele diz: “E nunca mais chame de nojeira “A Noite dos Mortos Vivos” de Romero!”. Ou seja, um traduziu mal a questão de “Zombie” ser na verdade o nome do filme italiano “O Despertar dos Mortos”. Enquanto que o outro citou na verdade, o primeiro filme da franquia. Totalmente aceitável, porque ainda hoje com internet, é difícil colher informações precisas sobre estas curiosidades.

Dylan é Rupert, Rupert é Dylan

Dylan é graficamente inspirado no ator inglês Rupert Everett, que na época estrelou seus primeiros grandes sucessos como Another Country (1984) (No Brasil, Memórias de um Espião) e Dancing with a Stranger (1985) (No Brasil, Dançando com um estranho). Mas Villa não deixa muito claro esta semelhança na capa. Ela é mais evidente no traço de Stano, principalmente quando, em close-up Dylan parafraseia o espião inglês James Bond ao se apresentar: “Meu nome é Dog, Dylan Dog”. Everett interpretaria outro personagem de Sclavi, Francesco Dellamorte em 1994, no filme Dellamorte Dellamore, de Michele Soavi, baseado no livro homônimo de Sclavi.

Rupert Everett em Dellamorte, Dellamore.

O traço de Angelo Stano, como se sabe, remete fortemente ao estilo do pintor austríaco Egon Schiele, cujo retrato de Erich Lederer, de 1913 apresenta sugestivas semelhanças ao herói da Bonelli.

O Endereço do pesadelo

As referências cinematográficas continuam. Dylan mora e trabalha na Craven Road n. 7. Uma homenagem ao diretor americano Wes Craven, conhecido pela saga A Hora do Pesadelo (1984) e que, apaixonado por quadrinhos, dirigiu em 1982 o filme do personagem da DC Comics, Monstro do Pântano, criado por: Bernie Wrightson e Len Wein.

Em entrevista ao The Guardian, Sclavi diz que nunca esteve em Londres, pois como Dylan, tem claustrofobia e medo de avião. “Escolhi o número sete para a residência de Dylan porque é um número mágico, e o nome da rua é uma homenagem ao cineasta de terror e ator Wes Craven. Anos depois, um ilustrador que morou em Londres me disse que Craven Road realmente existe”, comentou Sclavi. Por coincidência, a Craven Road fica a menos de um quilômetro da Baker Street, 221B, famosa casa de outro detetive inglês, Sherlock Holmes.

“Dylan e Sherlock são muito diferentes, mas com algumas coisas em comum. Pensei em Holmes quando Dylan precisava tocar um instrumento musical e escolhi o clarinete em vez do violino, que era o instrumento de Holmes”, explicou Tiziano e complementa, “e ao invés da solução de sete por cento, (onde Holmes se injeta cocaína na concentração de 7%), eu fiz meu personagem ser um alcoólatra em recuperação”.

Outro elemento que Sclavi acrescenta é que Holmes depende totalmente da dedução, Dylan prefere seguir o instinto, ou seu “quinto sentido e meio”. Holmes é um violinista amador, e Dylan sabe tocar apenas uma música em seu clarinete, O trilo do Diabo, de Giuseppe Tartini. Outra diferença é que Holmes beira a misoginia e tem dificuldades em cultivar relações afetivas, Dylan muito pelo contrário, se apaixona por uma mulher a cada episódio.

Pequenos grandes detalhes

A campainha barulhenta da casa de Dylan é uma homenagem ao filme Dinner Party, de 1976. No vídeo com um trecho da versão italiana do filme, é possível escutar o som da campainha no minuto 2:59. Este filme, uma paródia do clássico gênero policial, tem a extraordinária participação do escritor Truman Capote, autor de A Sangue Frio, em sua única e verdadeira interpretação cinematográfica.

Em 2004, em entrevista ao programa “Antistoria del fumetto italiano – Il caso Dylan Dog”, para o canal Cult Italia Network, Sclavi conta que o Fusca conversível, ou como é chamado na Itália, Maggiolino Cabriolet, foi o primeiro veículo que teve, e que acabou se tornando o carro de Dylan também. “Eu gostava muito deste carro, percorri mais de 130 mil quilômetros com ele. Embora deva dizer que era um veículo que eu não devia ter comprado pelas minhas ideias políticas. Na época era o carro de jovens fascistas”, comentou Sclavi. Lembrando que o Fusca, um dos veículos mais populares do planeta, nasceu em 1934 em plena Alemanha Nazista. Foi projetado pelo engenheiro automotivo austríaco Ferdinand Porsche, encomendado por Adolf Hitler.

A mesa de escrivaninha de Dylan é a mesma em que Sclavi trabalha. E o galeão que Dylan monta, é um galeão que Sclavi também tem, mas fica guardado em seu porão. É uma versão do HMS Victory, de 1765. Foi a nau capitania do Almirante Horatio Nelson, Comandante da Frota Britânica que derrotou a Esquadra Franco-Espanhola na Batalha do Cabo Trafalgar, durante as Guerras Napoleônicas. Em Dylan Dog, ao longo dos anos descobrimos que o navio é uma ligação ao passado, presente e futuro do personagem.

Batalha de Trafalgar. Quadro de JMW Turner.

Freaks e Fantasmas

O sobrenome de Sybil é Browning, assim como Tod Browning, diretor do filme Freaks, de 1932, além de Drácula de 1931, estrelado pelo carismático Bela Lugosi. Ao conversar com Sybil, Dylan coloca no toca-discos o tema musical de Caça Fantasmas, de 1984, de Ivan Reitman, interpretado por Ray Parker Jr.

O escritório de Dylan nos apresenta entre os discos um do compositor russo Modest Petrovič Mussorgsky, assim como, atrás do investigador, é exibido o pôster do filme The Rocky Horror Picture Show.

Robert Morley.

Na página 26 é apresentado o Inspetor Bloch, inspirado graficamente no ator inglês Robert Morley, que estrelou uma centena de filmes entre 1938 e 1990. O sobrenome Bloch, é uma referência ao escritor Robert Bloch, conhecido pelo seu livro Psicose, imortalizado nos cinemas por Alfred Hitchcock em 1960. O primeiro nome do Inspetor é Sherlock, uma clara referência a Holmes.

O título do segundo capítulo da história é “The Horror”, que se refere ao romance “Heart of Darkness” de Joseph Conrad, que inspirou o sucesso de Francis Ford Coppola, Apocalypse Now, e em particular ao monólogo de terror do Coronel Kurtz.

Groucho Marx Show

Mas, não falamos ainda da principal e mais óbvia homenagem à história do cinema em Dylan Dog: Groucho. O assistente de Dylan tem o nome e a aparência do comediante Groucho Marx, mais conhecido pelo grupo de comédia dos Irmãos Marx, em atividade do final do século XIX ao final da década de 1940.

Groucho é seu companheiro, seu melhor amigo, assistente e funciona como alívio cômico, uma metralhadora de piadas non sense: “Ele já foi comediante. Talvez você já o tenha visto em algum filme”, comenta Dylan. O comediante faleceu em 1977 e é de certa maneira mágico vê-lo com tanta naturalidade em um quadrinho seriado. Sua grandeza vai além do espaço tempo.

Por problemas relacionados aos direitos autorais do personagem, na edição americana de Dylan Dog publicada pela Dark Horse, Groucho não tem seu icônico bigode e é chamado.. Felix! E nem está presente no esquecível filme de 2010 de Dylan Dog, substituído por Marcus Adams, interpretado por Sam Huntington.

Xabaras Abraxas

O nome do grande vilão da primeira história, Xabaras, é um anagrama para Abraxas, um dos nomes do diabo como deduz Dylan. Na realidade, Abraxas tem uma origem incerta, com base no misticismo gnóstico e somente para se opor a isso foi associado à figura do diabo pelos padres católicos.

Xabaras grita ao patologista Archibald Potter (mesmo nome do compositor irlandês): “Não abra essa porta! Não abra!”, e o homem responde, “E porque não deveria abrir esta porta?”, não seguindo seu conselho e libertando um grupo de mortos vivos. Uma referência ao filme O Massacre da Serra Elétrica (1974), do diretor Tobe Hopper.

Além disso, Undead, a cidade escocesa onde acontece a parte final da história, é o título em inglês do filme The Undead (1957), de Roger Corman, com tema também em zumbis e que a tradução literal é “morto vivo”, claro.

Quando Dylan encontra Xabaras em sua casa, ao lado de um cadáver deitado sobre uma mesa de operação, ele grita: “Posso devolver-lhe a vida!”. Uma referência a Frankenstein de Mary Shelley. Mas ao invés de descargas elétricas, Xabaras usa um soro moderno, que no entanto transforma suas criaturas em monstros famintos por carne humana, exatamente como aconteceu no filme Re-Animator, de 1985, de Brian Yuzna e do conto original de Lovecraft, publicado de 1921 a 1922.

Na página 57, Xabaras menciona a si mesmo como: “Eu sou a lenda”. Referência à obra do escritor Richard Matherson, que inverte a obra de Drácula de Stoker, imaginando um mundo onde todos os homens se transformam em vampiros, exceto um. Já foi adaptado várias vezes para o cinema, sendo a primeira em 1964, no filme O último Homem, estrelado por Vincent Price. Em em 2007, estrelado por Will Smith.

Não confirmado, mas Xabaras poderia ter sido inspirado no Dr. Frederick Treves, interpretado por Anthony Hopkins no filme Homem Elefante (1980), de David Lynch.

Conclusão explosiva

O roteiro da primeira história é denso e cheio de ação, mesmo sendo apresentado em um enredo clássico, mas com muitos diálogos frescos, irônicos e ainda atuais. Uma atenção quase obsessiva para com os personagens em cada quadro em um ritmo apertado. Existem numerosos momentos de terror que embelezam a história. Tesouras nos olhos, ressurreições à moda antiga de túmulos de cemitérios, ressuscitações de corpos nus no necrotério…

Além de momentos inesquecíveis como a viagem de trem e a fuga para a cidade de Undead, onde presenciamos o momento favorito de muitos leitores que é a viagem de bicicleta. O final “explosivo” ainda gera polêmica entre os fãs, mas vamos considerar que ainda se tratava de uma evolução do personagem.

É uma edição muito importante e um marco na história dos quadrinhos italianos. E com a chegada do Omnibus, um novo marco para o personagem no Brasil.

Duas vezes Milazzo pelas Editoras Figura e Trem Fantasma

O artista italiano Ivo Milazzo terá duas obras lançadas por duas editoras diferentes. A primeira é “Um Dragão em Forma de Nuvem”, lançamento pela Editora Figura em campanha no Catarse. E o segundo é “Tina Modotti – Reflexos de uma vida”, lançado pela Trem Fantasma através do Clube do Trem e que já está sendo entregue.

Milazzo é um dos criadores de Ken Parker, famosa série de quadrinhos western que o lançou ao estrelato. Inicialmente publicada pela Sergio Bonelli Editore (então Editoriale Cepim), Ken Parker é atualmente publicado pela Editora Mythos no Brasil. Mas sua carreira vai muito além e entre outros trabalhos de sucesso está “O homem das Filipinas” publicado na coleção Um Homem, Uma Aventura, Welcome to Springville e Tiki – O Menino Guerreiro, obra que conta a história de um jovem indígena Carajá que viu sua aldeia ser dizimada devido às obras da Rodovia Transamazônica. O trabalho de Milazzo também pode ser visto nas séries da Bonelli Nick Raider, Mágico Vento e também no Tex Gigante #13 – Sangue no Colorado.

Em 2014 Milazzo publica pela Edizioni NPE Un Drago a Forma di Nuvola (Um Dragão em Forma de Nuvem), quadrinho que está sendo lançado pela Editora Figura em 104 páginas coloridas, capa dura em formato 20×26 cm. A obra na verdade é um roteiro de filme inédito do diretor italiano Ettore Scola, que desistiu de levá-lo ao cinema e em vez disso, procurou Milazzo para quadrinizá-lo. Scola é o diretor de sucessos como “Nós que nos amávamos tanto” e “Feios, sujos e malvados”. Um  Dragão em Forma de Nuvem chegou a ser oferecido à editoras brasileiras quando Milazzo esteve no Brasil em 2013 no FIQ, mas nenhuma teve interesse

A proposta de realizar o quadrinho surgiu justamente no momento em que Milazzo buscava novos desafios criativos. A obra conta a história de Pierre, um bibliófilo talentoso que vive na parte de cima de sua Livraria, L’Encrier et la Plume (O Tinteiro e a Pena), em Paris. Cria sua filha, Albertine, tetraplégica desde a infância. Albertine não anda, não se move e não fala, mas é uma das vozes narrativas da trama. Ela vê o pai às voltas com as dificuldades de mantê-la e analisa tudo sem autoindulgência. É alimentada por um acervo literário inesgotável que a torna irônica e brilhante. Passa as tardes ouvindo a Norma, de Bellini, com a soprano Maria Callas.

A vida de Pierre é marcada por uma rotina tranquilizadora de pequenos hábitos. Porém, quando uma jovem entra em seu caminho, sua vida muda completamente. Milazzo comenta no texto introdutório que estará na edição da Figura, que o roteiro o levou às lágrimas. “A história, aparentemente desprovida de reviravoltas, mas contendo uma situação humana completamente singular, expressa uma sensibilidade existencial que envolve quem a lê”.

Em 2021 Milazzo cria mais uma grande obra, “Tina o Maria – Riflessi di una vita”, que será publicada pela Editora Trem Fantasma com o título “Tina Modotti – Reflexos de uma vida”. A obra tem colaboração de Anna Rita Graziano nos textos e foi publicada também pela Edizioni NPE.

Na conturbada primeira metade do século XX, Tina Modotti (1896 – 1942) foi uma das figuras mais fascinantes de sua época. Estrela em Hollywood, fotógrafa, guerrilheira e espiã. Viveu intensamente entre paixões, perigos e artes. Modotti sempre esteve envolta em mistérios e, nessa obra, descortinam-se os fatos que contribuíram para a construção da lenda. Como fotógrafa, por exemplo, enquanto vivia no México, Tina envolveu-se progressivamente no ativismo político, testemunhando a exploração da classe trabalhadora desde a infância, aprendendo sobre as condições precárias do povo de uma nação que recentemente havia saído de uma revolução.

Milazzo explica que a ideia de uma história em quadrinhos dedicada a Modotti partiu do roteirista de televisão, Valerio Peretti Cucchi. Interessado na figura de Modotti desde a década de 1990, num período histórico em que as informações sobre a fotógrafa eram ainda mais nebulosas do que hoje e seu nome havia caído no esquecimento da história,  Peretti mencionou seu projeto a Milazzo dias antes de sofrer um ataque cardíaco.

A ideia permaneceu engavetada até a esposa de Peretti, Anna Rita Graziano – que aparece como co-autora do quadrinho – solicitar a Milazzo que realizasse o projeto. Milazzo então iniciou um difícil trabalho de pesquisa histórica sobre Modotti, que teve o ponto alto quando recebeu a colaboração de uma comissão de Udine, Itália, terra natal de Tina, dedicada à memória da ativista e fotógrafa. Milazzo encontrou então uma bibliografia curta e de fácil acesso, que o ajudou a compreender os acontecimentos pessoais e políticos de Modotti.

Reflexos de uma Vida narra os momentos marcantes e mais bem documentados da vida de Modotti, através de uma série de episódios que valorizam sua história humana e colocam a mulher no centro, antes mesmo de seu compromisso político e social. A história de Milazzo restaura assim a imagem de uma figura “de olhar triste”, como a descrevem muitos biógrafos, misteriosa, fascinante, mas testada pela dor de muitas perdas emocionais, causada por ter sido testemunha ocular de um período histórico muito feroz. Uma mulher que lutou para encontrar uma dimensão existencial que estivesse próxima dos seus próprios ideais éticos e políticos.

Um dos diferenciais da obra, é que Milazzo incluiu as fotos originais de Tina entre os quadros da história. A edição publicada pela Trem Fantasma tem 112 páginas em cores e preto e branco, no formato 20x28cm e está disponível no link do Clube do Trem: https://celcash.celcoin.com.br/editorafantasma/tinamodotti

Um  Dragão em Forma de Nuvem está em campanha no Catarse e pode ser apoiado até o dia 5 de julho pelo link: https://www.catarse.me/milazzo_micheluzzi

 

A Confraria Bonelli junto à Editora Trem Fantasma fará uma Live neste domingo (9), a partir das 20 horas para falar da obra Tina Modotti – Reflexos de uma vida. A live contará com a participação de Marcello Fontana e Guido Morais, editores da Trem Fantasma, Silvio Raimundo, fã e tradutor e a cartunista Lu Vieira, e será mediada por Ricardo Elesbão. Durante a live será sorteado um bookplate autografado por Ivo Milazzo para membros do Clube do Trem.

Mister No e a Mad Maria

Sergio Bonelli era um aventureiro e muitas das histórias que escreveu com o pseudônimo de Guido Nollita saíram de suas aventuras. Em Mister No isso acontece ainda mais, pois Jerry Drake percorre por muitas vezes o caminho trilhado no mundo real por seu criador, Sergio.

Um exemplo disso é a relação de Sergio Bonelli com a Ferrovia Madeira-Mamoré, cuja história foi imortalizada no livro Mad Maria de Márcio de Souza. A intenção era construir uma estrada de ferro de 366 Km no meio da Floresta Amazônica para ligar Guajará-Mirim a Porto Velho.

A Bolívia havia perdido sua faixa litorânea no Pacífico para o Chile, durante a Guerra de Guano em 1883 ficando sem saída para o mar, meio fundamental para uma economia baseada na exportação. Por isso os bolivianos optaram trocar o Acre por uma ferrovia que fosse da fronteira do Brasil ao rio Mamoré e daí, de barco pelos rios Madeira e Amazonas, os produtos bolivianos chegariam ao Atlântico.

Faroestes “brasileiros” com DNA Bonelli serão publicados pela Pipoca & Nanquim

Agora é oficial: Trilogia Gatilho em cores e volume único, de Carlos Estefan e Pedro Mauro, e outro quadrinho inédito de faroeste (The Solicitor), de Gianfranco Manfredi e Pedro Mauro, serão publicados pela Pipoca & Nanquim (PN).

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