Categoria: Editoras Page 1 of 4

Mythos descontinuará série formatinho de Júlia

Live no canal Cangaceiro HQ.

A Editora Mythos através de sua Gerente de Marketing Joana Rosa Russo revelou que a editora iniciará testes de conversão do formatinho para o formato italiano em suas edições, começando por Júlia.

Na live no Instagram do Cangaceiro HQ (Jefferson Ribeiro), realizada no último sábado (4), que contou com a presença da fã e colecionadora Talyta Vargas e Marcelo Presto, do Canal do Presto, Joana também foi convidada e trouxe várias novidades para a personagem.

Júlia hoje conta com três publicações em andamento pela Mythos. J. Kendall – Aventuras de uma Criminóloga, em formatinho e papel jornal, que chega à edição 154 com a edição já em pré-venda no site da Mythos. Júlia – Edição Limitada, em formato italiano e papel offset que é lançada de cinco em cinco edições, e em outubro serão lançadas as edições 21 a 25. E Júlia Graphic Novel, em formato maior, capa dura, colorida, papel couché que está na segunda edição.

Última edição de J. Kendall – Aventuras de uma Criminóloga.

Joana revelou que a edição 155 de J. Kendall – Aventuras de uma Criminóloga, que seria lançada final do ano e contaria com as edições 200 e 201 italianas, já que esta edição traz duas histórias, não será publicada. “Pela primeira vez a gente (Mythos) vai começar a migrar a conversão de formato. A gente vai zerar a numeração na 200, trazendo uma edição colorida em formato italiano e vai mandar pra banca. Ela vai voltar a ser uma história por vez e se chamar Júlia”, revelou Joana na live.

E complementou, “a ideia é que Júlia seja o primeiro volante de teste para banca de uma conversão de formato, para mais adiante a gente poder estudar isso para outras séries Bonelli”, ou seja, se tudo der certo fazer isso com Tex no futuro, que ainda é publicado em formatinho e papel jornal em várias de suas coleções e só é publicado em formato italiano em edições On Demand, com baixa tiragem.

Edições centenárias coloridas

A editora Sergio Bonelli costuma lançar seus números centenários a cores, por isso esta primeira edição de Júlia nova série da Mythos será colorida, pois corresponde ao número 200. Uma edição muito comemorada na época de seu lançamento na Itália, em 2015. Júlia foi lançada em 1998 e oito anos depois comemorou seu centenário com a edição especial colorida com a história “Clowns” (Palhaços).

Capa italiana de Júlia 200.

Giancarlo Berardi, criador de Júlia, comenta que Julia Kendall é a “investigadora da alma”.  “Entre criminologia e a psicanálise, uma pessoa, mais do que um personagem, cuja aparência, ao mesmo tempo meiga e aristocrática, foi inspirada na atriz de cinema Audrey Hepburn. Quando apresentei o projeto ao Sérgio (Bonelli), que após horas de conversas cara a cara em seu escritório, me disse: “Não entendi muito, mas confio em você. Continue”. Um grande elogio, mas também uma grande responsabilidade. Hoje eu adoraria que ele estivesse aqui conosco para celebrar a edição ducentésima da série”, destacou Berardi à época do lançamento do número 200.

A edição 200 traz a história L’Immagine perduta (A imagem perdida), com roteiro de Berardi e Lorenzo Carla. Desenhos de Cristiano Spadoni e cores de Florean Arianna.

Um fotógrafo, Evlyn Wescott, ficou cego após um acidente em seu estúdio, no qual sua esposa perdeu a vida. Agora, algum tempo depois desse trágico acontecimento, Wescott é vítima de uma série de atentados contra sua vida, dos quais felizmente consegue salvar-se. Quando uma modelo com que havia trabalhado há muito tempo é morta, o fotógrafo acredita que o assassinato pode estar relacionado a uma foto de alguns anos atrás e pede a Julia para desvendar o caso…

Vídeo comemorativo com as 200 capas de Júlia

No Brasil, Júlia quase foi cancelada

Primeira edição de Júlia em formato italiano.

No Brasil, Julia correu o risco de ser cancelada duas vezes. A primeira vez em 2010, na edição 71, mas após uma campanha dos leitores ela continuou. Joana comenta que há um tempo atrás Julia estava correndo o risco de ser cancelada novamente, foi quando a editora resolveu relançar a personagem desde a número 1 em outubro de 2019 em formato italiano, de cinco em cinco edições.

Esta proposta foi um sucesso, muito bem aceita pelos leitores de Júlia e também por novos leitores. “Muita gente não tinha mais como encontrar as primeiras edições e muita gente não conhecia a personagem e não davam chance à ela por causa do formatinho. Muitos dos leitores até gostam do formatinho, mas ele está caindo em desuso, tanto por motivos comerciais, como por estar difícil achar o papel  da edição no mercado gráfico brasileiro”, disse Joana na live.

Ela comenta também que o aproveitamento de papel, quando comparado ao formato italiano não é mais efetivo, “as vendas já estavam baixas, e a venda nas bancas e livrarias estava em crise. Trouxemos uma versão teste, os cinco primeiros números de Julia, um sucesso absurdo, que continua sendo reimpresso”, destaca Joana e complementa, “percebemos que quando mudou o formato, deixando mais bonita a edição, muitas pessoas começaram também a comprar o formatinho. Tinha diferença de comportamento e preferência pessoal dos leitores por cada edição”.

Joana ressaltou que muitos leitores olhavam com preconceito para o formatinho, que hoje em dia vem na contramão do mercado de edições mais luxuosas e caras, “mas não é porque está no formatinho que é um formato descartável, o conteúdo tem muita qualidade”, comenta a Gerente de Marketing da Mythos.

Para saber mais sobre Júlia Kendall assista nossa Live especial sobre a personagem:

Cavenago deixa capas de Dylan Dog para trabalhar no Millarworld

A partir do mês de setembro a série mensal de Dylan Dog terá dois novos capistas. Os irmãos Raul e Gianluca Cestaro substituem Gigi Cavenago, cuja última capa é a do número #420, intitulada Jenny. Nas últimas edições de Dylan Dog, Cavenago desenhou a quarta capa da edição e as principais foram feitas por Fabrizio De Tommaso remetendo à parceria realizada com o músico Vasco Rossi.

A estreia dos irmãos Cestaro será na edição #421, com lançamento previsto para 30 de setembro, edição comemorativa de 35 anos de Dylan Dog. A edição intitulada La Variable (A Variável), terá roteiro de Paola Barbato e desenhos de Fabio Celoni.

Raul e Gianluca Cestaro estão na Bonelli desde 1996 e desde 2002 se dedicam sobretudo à Tex. A partir de 2020 se tornaram capistas da série bimestral Dylan Dog Old Boy, dedicadas às aventuras da versão “clássica” do personagem, pré-reforma realizada pelo editor Roberto Recchioni.

Arte dos irmãos Cestaro para Dylan Dog Oldboy.

 

Único comentário de Recchioni sobre a saída de Cavenago.

 

Primeira capa por Cavenago. DyD #363

 

Última capa de Cavenago. DyD #420

A saída de Cavenago não foi alardeada e teve apenas um comentário muito singelo de Recchioni em seu perfil no Facebook, onde respondeu a um leitor que a mudança de capista se deve ao fato que Gigi Cavenago “tem prioridades diferentes”, sem dar mais informações.

Cavenago tornou-se capista de Dylan Dog na edição #363 de novembro de 2016, substituindo Angelo Stano, um dos principais artistas do Investigador do Pesadelo.

Alguns artistas confirmaram que Cavenago já não estava contente com seu trabalho na Bonelli e que está trabalhando com Mark Millar. Mauro Balloni, artista que já trabalhou em publicações como Heavy Metal, destacou que Cavenago está ocupado “desenhando a série Magic Order”.

Magic Order é A Ordem Mágica, cujo primeiro volume já foi publicado no Brasil pela Panini. Esta HQ faz parte do Millarworld e está com uma série em desenvolvimento pela Netflix, detentora dos direitos do Millarworld. A série havia sido cancelada e retomada um tempo antes do lançamento de O Legado de Júpiter, outro quadrinho do Millar levada ao Streaming que fracassou, sendo cancelada já na primeira temporada.

Na época do lançamento de O Legado de Júpiter pela Netflix (junho), Mark Millar revelou que a edição #2 de A Ordem Mágica será desenhada por Stuart Immonen e a #3 por Gigi Cavenago. As duas edições saem já nos próximos meses. A primeira edição foi desenhada pelo co-criador da série Olivier Coipel. A Ordem Mágica segue cinco famílias de mágicos que juraram proteger a Terra, mas vivem disfarçados de pessoas normais durante o dia.

Cavenago espera que trabalhando com Millar ele possa crescer como artista e mudar de indústria. Desejamos sucesso à Gigi, nos brindou com belíssimas capas que o público brasileiro começará a ter acesso pela Editora Mythos em Dylan Dog Nova Série, já em 2022. O trabalho de Cavenago já saiu no Brasil na edição especial e Graphic Novel Dylan Dog – Mater Dolorosa, ilustrada e colorida pelo mesmo.

Grazie di tutto Gigi!

Esta matéria conta com a colaboração de José Nascimento do grupo: Dylan Dog – O Detetive do Pesadelo

Skript lançará Apocalipse e Napoleone

Na sexta-feira (16), Douglas Freitas da Skript Editora anunciou em uma live no instagram do Fora do Plástico mais dois Bonellis pela editora.

O primeiro anúncio na live foi Apocalipse – O Livro das Revelações de São João, escrito por Alfredo Castelli (Martin Mystère) com desenhos de Corrado Roi (Dylan Dog). Lançado em 2019, o volume tem 112 páginas com lançamento da campanha no Catarse pela Skript dia 31 de outubro, para ser entregue em dezembro.

Alfredo Castelli, pela primeira vez no mundo, escreve uma fiel transposição para os quadrinhos do último e mais visionário livro do Novo Testamento: O Apocalipse de João. Uma história visionária que junto ao traço de Corrado Roi encontrou uma representação eficaz e surpreendente. O Apocalipse é um dos textos mais enigmáticos da Bíblia, por muito tempo objeto de várias interpretações por inúmeros estudiosos e críticos devido à sua natureza às vezes polêmica e de difícil compreensão.

Castelli com seu talento e inegável coragem, ao transpor para os quadrinhos o livro bíblico, obviamente indica que não deve ser entendido como uma adaptação na íntegra, mas sim como um resumo por parte dele com o intuito de condensar o texto em vários pontos, de forma a permitir a qualquer pessoa apreender os aspectos fundamentais sem se encontrar perante algo exageradamente elitista e com difícil entendimento.

Para ajudar o leitor a compreender melhor, tanto os traços característicos de Roi quanto textos no final do volume conseguem fornecer orientações capazes de contextualizar de uma forma satisfatória os principais pontos da narrativa. O Apocalipse é uma jornada dentro da alma humana e do que para cada um de nós representa o próprio conceito de fim – e também do inevitável novo começo – dado pela ressurreição no Cristianismo ou pela reencarnação em numerosas outras religiões.

Durante a história acompanhamos várias personalidades se perguntando inúmeras questões sobre o próprio significado do livro do Apocalipse. Figuras como Isaac Newton e até mesmo Alesteir Crowley. Castelli apresenta também interpretações por trás do fenômeno do Apocalipse, quase sempre recebido como uma catástrofe e tragédia, porém, omitindo o valor positivo vinculado ao recomeço das coisas. Castelli até mesmo dá importância ao simbolismo e à numerologia, falando no caso das figuras 777 e 666, protagonistas de sequências em que os vários personagens da história questionam seu real significado.

O traço de Corrado Roi está magnífico e em grande forma. Seus desenhos conseguem realçar personagens humanos e criaturas monstruosas. Felizmente, Roi consegue retrabalhar um imaginário tremendamente difícil e enigmático dando vida a uma série de quadros com uma forte impressão onírica, inquietante, surreal e às vezes majestosa.

A obra é incrivelmente bem feita apesar da complexidade de seu material original, ainda hoje no centro de debates contínuos sobre qual é a interpretação mais correta e exaustiva possível.

E o segundo lançamento é a estreia de Napoleone no Brasil: Napoleone – Oltre i confini delle sfere stellate. Volume com cerca de 304 páginas com história e arte de Carlo Ambrosini, criador do personagem. Napoleone encerrou a série regular em 2006 na edição 54 e Ambrosini trouxe neste especial três histórias da série regular que em breve será publicado pela Skript.

Dividido entre o cotidiano noir e poético, este volume reúne três das principais aventuras da série (#1, #4 e #25), escolhidas entre aquelas inteiramente feitas pelo seu criador, Carlo Ambrosini, tanto nos textos quanto nos desenhos. O volume é enriquecido por desenhos e ilustrações inéditos e por um texto do próprio Ambrosini que fala sobre “seu” Napoleone.

Dividido entre o cotidiano noir e poético, Napoleone Di Carlo é um ex-policial que após a dramática morte de sua família e uma amarga decepção profissional, vai administrar um hotel em Genebra. Lá, ele é constantemente solicitado para ajudar a polícia local em investigações. Napoleone convive com uma profunda anomalia: elementos psíquicos produzidos por sua imaginação, e visíveis apenas para ele, interagem sem sua percepção da realidade cotidiana, dialogando com ele na forma de três bizarras estatuetas, chamadas Lucrezia, Caliendo e Scintillone.

Para saber mais sobre o personagem, acesse esta matéria especial da Confraria Bonelli acessando este link: https://confrariabonelli.org/?p=3098

O lançamento da campanha no Catarse é previsto para janeiro de 2022 com entrega programada para Março.

Todos os volumes que a Skript planeja publicar da Sergio Bonelli Editore serão no tamanho: 20x28cm. Um pouco maiores que os volumes publicados pela Trem Fantasma (19x26cm) e Chanbara da Panini Comics (18,5 x 26).

A Skript já havia anunciado também duas edições que fazem parte da coleção Le Storie:

LAVENNDER (Speciale Le Storie 4) – Umas férias no paraíso, nas águas cristalinas do oceano. Uma ilha perfeita, não contaminada, deserta … ou não? Por trás dessa fachada idílica, neste cenário de cartão-postal, os jovens Gwen e Aaron vislumbram algo inquieto e misterioso. Algo que se move entre a folhagem, no meio da mata. E parece estar espionando-os. Há mais alguém com eles naquele lugar remoto? Um thriller de tirar o fôlego escrito, desenhado e colorido por Giacomo Keison Bevilacqua, o autor de “A Panda gosta” e “O som do mundo de cor”, em sua primeira experiência Bonelli.

Saiba mais sobre Lavvender em matéria especial da Confraria Bonelli, AQUI. Lançamento da campanha no Catarse prevista para dia 08 de agosto.

O FATOR Z (Le Storie 27) – Nova York, hoje. Os sinais agora são evidentes, a praga invisível está se espalhando e o apocalipse está próximo: os mortos ressuscitam do sono eterno, com fome de carne humana! Para a jovem Helen, isolada em uma Manhattan fantasmagórica, escapar de suas garras terríveis será como passar pelo inferno! Com roteiro Giovanni Gualdoni, desenhos de Marco Bianchini e Capa de Aldo Di Gennaro.

Lançamento para campanha no Catarse prevista para dia 17 de outubro.

O lançamento das campanhas de Lavvender e O Fator Z serão realizadas em live com a Confraria Bonelli. Em breve mais informações.

Mister No – Era uma Vez em Nova York

No próximo domingo (20), a Editora 85 irá lançar uma nova campanha no Catarse onde trará as obras Morgan Lost #3, Dampyr #7 e a estreia da minissérie integral Hellnoir e de Almanaque Mister No #1 com a história “Era Uma Vez em Nova York”.

A Confraria Bonelli fará uma live especial com a participação do editor da 85 Leonardo Campos e o tradutor Júlio Schneider, onde será comentado sobre todos os lançamentos e sobre a campanha que iniciará no domingo mesmo durante a Live.

Era uma vez em Nova York

Manhattan, 1936. Na Nova Iorque da Grande Depressão, cresce um menino inquieto chamado Jerry Drake. É um amuleto de boa sorte para o gigantesco Trem Kowalsky, o maior dos boxeadores de rua da época. E ele está perigosamente fascinado pelo gangster Frankie “Missa Cantada” Nigro, de quem é seu protegido. Jerry também se tornará um “bom rapaz” como ele?

Maurizio Colombo é um roteirista pouco convencional. Na Sergio Bonelli Editore começou a escrever em Zagor, Nick Raider e Mister No, até criar, junto a Mauro Boselli a série mensal Dampyr. Hoje em dia, este talento não mais escreve quadrinhos. É uma pena, pois Colombo, se continuasse seria o herdeiro natural de Sergio Bonelli.

Era uma Vez em Nova York é um exemplo perfeito disso. Diferente de Mister No Revolução, de Michele Masiero que narra a juventude de Mister No passando pela Guerra do Vietnã, publicada no Brasil pela Panini em três partes, Era uma vez em Nova York narra a juventude de Mister No da série regular, que nasceu em Nova York na década de 1930, lutou na Segunda Guerra Mundial e depois foi parar no Amazonas.

Colombo constrói uma jornada fascinante e nostálgica para Jerry Drake (Mister No) em sua infância, onde morou na área norte de Manhattan, perto do Harlem. A história acontece na metade da década de 1930 e o jovem Jerry vive em meio a bandidos de médio porte sem futuro. Ele verá seu melhor amigo ser morto por um idiota, irá aspirar a se tornar um gângster como seu mentor, conseguindo descobrir por si mesmo qual é o caminho certo a seguir.

É o próprio Mister No adulto que narra a história reconstituindo os lugares de sua juventude agitada, tudo ao estilo e ritmo do filme Amarcord (1973), de Frederico Fellini. O título Amarcord é uma referência à tradução fonética da expressão a m’ arcord (eu me lembro), usada na região da Emilia-Romagna, onde o diretor nasceu. Federico Fellini sempre negou que o filme fosse uma autobiografia, mas reconhecia que existiam semelhanças com a sua própria infância em Rimini.

Trailer de Amacord, onde a atmosfera do filme está presente nas páginas de Era uma vez em Nova York:

Claro que O Rei do Sertão e Magia Negra são obras-primas consideradas pelos fãs de Mister No, ambas já publicadas pela 85 na série Especial, mas Era uma vez em Nova York é uma obra apaixonante que merece estar entre as melhores histórias do personagem. Em especial se quisermos compreender as origens de um personagem tão fora da caixa quanto Mister No.

As evidências ao cinema ficam evidentes a todo momento a começar pelo título, que remete aos filmes de Sergio Leone, em especial a “Era uma vez na América” que tem a mesma temática e acontece na mesma época.

Colombo também insere na trama filmes de gângster de Hollywood, passando por clássicos do cinema mudo como Asas (1927), de William Wellman, que aumenta a paixão do jovem Jerry pela aviação.

Mas o ponto alto desta história é a galeria de personagens que Colombo insere na trama de quase trezentas páginas, onde se destaca o maior vilão com um coração de ouro, Frankie “Messacantata” (Frankie Missa Cantada Nigro na versão da Editora 85), uma espécie de Robin Hood que não perdoa os infames e protege os indefesos.

O gângster Frankie “Messacantata” é inspirado no ator Chistopher Walken, mas a risada é claramente reinventada no modelo Jack Nicholson quando interpretou o Coringa em Batman (1989). Já o assassino da máfia, Carmine, conhecido como Zanzara lembra o personagem Mabuse da história em quadrinhos Um Homem de Chicago de Alfredo Castelli e Giancarlo Alessandrini.

Walken em O Último Matador (1996)

Iremos conhecer também o personagem Trem Kowalsky, um boxeador de rua dotado de grande humanidade.  A tia de Jerry que espera ansiosamente por seu irmão que foi lutar na guerra da Espanha e tem que suportar um marido policial violento e “incorruptível”; e, finalmente, o aspirante a gênio da música Ray Dubois que acompanha esta história com notas de jazz.

Em uma aventura tão cheia de ação e emoção, não poderia faltar o amor do pequeno Jerry por Lizzie, um amor não correspondido como a maioria dos amores juvenis, cheio de decepções e ressentimentos.

Os desenhos de Giovanni Bruzzo completam esta grande obra, reconstruindo com perfeição o clima retrô de um filme de gângsteres e imergindo o leitor naquele fedor nauseante e típico dos bairros populares da Grande Maçã. Bruzzo imprime um estilo clássico, perfeito para uma história de aventura.

Esta história foi lançada em Maxi Mister No #2 em 1999, e se destaca claramente das outras do herói a que estamos acostumados, oferecendo-nos uma das melhores histórias da própria Bonelli dos últimos anos. Um verdadeiro afresco histórico que uma vez lido não é esquecido.

Almanaque Mister No #1

Esta nova proposta da Editora 85 quer trazer histórias completas de Mister No, especialmente da série Maxi, já que as da série Speciale já saem em Mister No Especial, que já está na sexta edição. O Almanaque terá 292 páginas com miolo offset e capa cartão supremo com orelhas. Formato italiano.

Para saber mais acompanhe a live de lançamento da campanha da 85 no canal da Confraria Bonelli. A live acontece no domingo (20) a partir das 20 horas.

Editora 85 lança Hellnoir

No próximo domingo (20), a Editora 85 irá lançar uma nova campanha no Catarse onde trará as obras Morgan Lost #3, Dampyr #7 e a estreia de Almanaque Mister No #1 e da minissérie integral Hellnoir.

A Confraria Bonelli fará uma live especial com a participação do editor da 85 Leonardo Campos e o tradutor Júlio Schneider, onde será comentado sobre todos os lançamentos e sobre a campanha que iniciará no domingo mesmo durante a Live.

Capa da edição brasileira de Hellnoir. Editora 85.

 

Conhecendo melhor Hellnoir

Hellnoir é uma cidade, em algum lugar entre o nosso mundo e outro. Uma metrópole sombria, imensa e tentacular. Todos os que tiveram uma morte violenta acabam em Hellnoir, uma segunda vida quase sempre mais dolorosa e cruel do que a primeira. Hellnoir é um lugar podre e corrupto, repleto de almas condenadas. É preciso seguir certas regras se quiser sobreviver, regras escritas com sangue, declamadas em meio a gritos e lamentações, gravadas em carne mutilada.

Acompanharemos o Detetive Melvin Soul, ele conhece todas estas regras. A morte não tem segredo para ele. E Hellnoir, apesar de ser um inferno, ele chama de “lar”.

Hellnoir é fruto da coleção Romanzi a fumetti Bonelli que publica as Graphic Novels da Bonelli como Tex: Frontera e Drama no Deserto, UT e Comissario Ricciardi. Ao todo foram publicadas até agora 40 edições. A Romanzi a Fumetti surgiu após o sucesso de minisséries da Bonelli como Brad Barron, Demian e Face Oculta. A editora desde então resolveu explorar novos formatos em relação aos tradicionalmente usados a fim de adquirir uma gama maior e diferenciada de leitores.

Com roteiro de Pasquale Ruju (Tex, Cassidy, Demian e Dylan Dog), arte de Giovanni Freghieri (Dylan Dog, Face Oculta, Martin Mystère) e capas de Davide Furnò (Escalpo – DC Comics), Hellnoir será a primeira Graphic Novel da Editora 85. Com 388 páginas, miolo offset, formato italiano e capa cartão supremo. Compila as quatro edições da minissérie: #1 – Uma cidade pela qual morrer; #Cherchez la Femme #3 O abismo olha para você; #4 Estirpe Maldita.

Hellnoir como o próprio nome já demonstra é uma trama noir de terror e Pasquale Ruju usa todos os elementos possíveis destes estilos nesta obra. O personagem principal, Melvin Soul nasceu referência a Philip Marlowe e Sam Spade, personagens criados pelo escritor e roteirista Raymond Chandler, gênio das tramas policias e noir. Estes personagens cunharam o estilo Detetive Particular com Capa de chuva e chapéu, se comprometendo sempre consigo mesmo, um herói que se considera um anti-herói irremediável. Prefere rastejar nas periferias e cuidar da sua própria vida, assim como Melvin Soul.

Philip Marlowe e Sam Spade, personagens criados pelo escritor e roteirista Raymond Chandler.

O mundo de Hellnoir acaba se misturando ao mundo real quando Ruju insere Cassie, filha de Melvin na trama. Ela está bem viva no mundo real e acaba recebendo a ajuda do pai, morto, diretamente do mundo infernal. Cassie é inspetora do Departamento de Polícia de Chicago. Órfã e excelente investigadora.


Ruju aplica um roteiro muito confortável, mesmo nas etapas das investigações de Melvin, que assumem um ritmo realista e menos apressado. Ruju sabe como trabalhar com o noir mas o desenho de Freghieri é o que nos coloca de vez neste estilo.

Algumas pessoas podem até dizer que se parece muito com Sin City, de Frank Miller, mas Freghieri já trabalhava muito bem o preto e o branco na década de 70 quando fez Sorrow, com roteiros de Graziano e Claudio Cicogna e que saia na revista Magnum.

Sin City, de Frank Miller (1991).

Na quarta história de Hellnoir, uma cena da personagem Blanche lembra muito a cena de dança de Nancy, em Sin City:

O artista trabalha a luz e sombra de forma expressionista e a iluminação tem sua própria lógica física. Freghieri consegue, usando apenas preto e branco, destacar graficamente o mundo dos vivos e o de Hellnoir. Quando Cassie atua nós vemos linhas finas, figuras contornadas e traços grossos. Enquanto que em Hellnoir existe uma “solarização” do preto e do branco onde nos damos conta imediatamente em qual cenário nos encontramos.


Saiba mais sobre a obra em nossa live, no próximo domingo (20) e não deixe de adquirir a primeira Graphic Novel da Editora 85 apoiando a campanha no Catarse.

Napoleone – Uma estranha aventura da Bonelli

1ª edição de Napoleone

Quando lançado em 1997, Napoleone não recebeu toda a publicidade que os quadrinhos da Bonelli geralmente recebiam em seus lançamentos. Foi algo destinado a um nicho de leitores, que acabou se revelando menor do que se esperava, findando assim, em 2006, uma publicação que não merecia ter sido encerrada.

Carlo Ambrosini criou todas as características do personagem, incluindo sua aparência que lembra muito, no início pelo menos, de Marlon Brando em O último Tango em Paris. Napoleone se revela um thriller/noir introspectivo e psicológico, cheio de conteúdos e referências culturais, para apaixonar o leitor ou abandoná-lo após algumas páginas. Em consenso, era algo que não parecia pertencer à Bonelli.

Marlon Brando em O Último Tango em Paris serviu de referência visual à Napoleone.

Um dos fatores mais estranhos de Napoleone é ele se passar na Suíça, precisamente em Genebra. Ambrosini comenta que, “originalmente, o cenário deveria ser Milão, minha cidade. Eu tinha localizado o Hotel Astrid, uma pensão da qual Napoleone é proprietário, na Via Paolo Sarpi: a Chinatown milanesa. Lamento por não ter feito em Milão, porque, sem dúvida, eu poderia ter feito muito mais coisas com facilidade. Porém, a preocupação de que houvesse um realismo topográfico pudesse comprometer negativamente o protagonista. O exilamos na Suíça, em Genebra, cidade da qual pouco conheço e que creio que o nosso público também pouco sabe. A cidade suíça, no entanto é só um pretexto, pois certamente os elementos narrativos de Napoleone o leva a explorar os mais variados lugares”.

O Personagem

Napoleone Di Carlo, nasceu em Addis Ababa, na Etiópia, após a Segunda Guerra Mundial. Filho de pai italiano e mãe francesa, que “deu-lhe uma educação ocidental (fazendo-o estudar em uma escola italiana). Mas o jovem Napoleone, ao mesmo tempo, assimilou a cultura mais arcaica, impregnada de animismo e espiritualidade primitiva, do país africano em que cresceu e pelo qual se sente fortemente atraído.

Para entender melhor, o animismo abrange a crença de que não há separação entre o mundo espiritual e o mundo físico e de que existem almas ou espíritos, não só em seres humanos, mas também em animais, plantas, rochas, montanhas ou rios, etc.

Napoleone é um solitário, dedicado à leitura e entomologia (que estuda os insetos), em particular aos besouros. É o oposto do homem clássico de ação. Prefere a reflexão, introspecção, análise, atende a dúvida antes de qualquer certeza. É uma pessoa muito racional, e é por ser racional que é extremamente lúcido, dando motivos para que dois coadjuvantes da série recorram com frequência a ele, o Inspetor Dumas e o Inspetor Adjunto Boulet, que envolvem Napoleone em casos complicados da polícia suíça.

Napoleone tornou-se policial, mas seu entusiasmo pela profissão se exauriu com o fracasso na captura de um criminoso que, disfarçado de empresário credenciado na embaixada italiana, praticava o comércio de escravos. Agora, ex-policial, no início da série, Napoleone tem 35 anos, e o vemos decidido a dirigir, principalmente no período noturno, seu albergue, o Astrid Hotel, ajudado pela Sra. Simenon.

A relação entre investigação policial e o mundo onírico

A série Napoleone tinha a intenção de ser algo do gênero giallo (policial) e noir, ao estilo do diretor Alfred Hitchcock (Psicose) e do escritor Raymond Chandler (O Longo Adeus). No entanto, isso é só um pano de fundo para as investigações especiais de Napoleone. Na verdade, ele experimenta uma profunda anomalia: elementos psíquicos produzidos por sua imaginação, e visíveis apenas para ele, interagem sem sua percepção da realidade cotidiana, dialogando com ele na forma de três bizarras estatuetas, chamadas Lucrezia, Caliendo e Scintillone.

Lucrezia é uma ninfa que afirma e representa a sensibilidade feminina. Uma espécie de Sininho, do Peter Pan, com direito a relação ciumenta que ela tem com o protagonista; Caliendo é um mordomo pedante e normativo; Scintillone é um pequeno tolo, intolerante com regras e disciplina. Tem uma forma estranha de um peixe ou anfíbio.

Estes três elementos são para Napoleone a confirmação da existência de um mundo diferente do físico, que acabam interferindo no mundo físico, às vezes subvertendo radicalmente o julgamento das situações. Na sucessão dos acontecimentos do dia-a-dia, assim como nos acontecimentos da história, o acaso desempenha um papel determinante.

Durante suas aventuras, Napoleone está em contínua interconexão com o mundo real e um lugar situado fora do tempo e do espaço, onde vivem todas as “figuras” produzidas pela imaginação humana ao longo dos séculos, do Minotauro a Pinóquio… Lá, sonhos, pesadelos, fantasias, delírios e assim por diante coexistem lado a lado, esperando que seus legítimos produtores humanos os solicitem.

No lugar fora do espaço e do tempo, Napoleone é acompanhado por um cavalo falante, filósofo e estudioso que ostenta um sotaque bolonhês improvável. Onde fica este lugar? A legenda que acompanha a mudança de cenário sempre diz “acima dos lagos, dos vales, das montanhas, dos bosques, das nuvens, dos mares, além do sol, do éter e dos limites das esferas estreladas”, como se fosse um endereço, uma espécie de “segunda estrela à direita e depois direto até a manhã”, como em Peter Pan.

Apesar disso, as aventuras que Ambrosini nos contou ao longo de quase nove anos puderam abranger os mais variados registros narrativos: desde investigações tradicionais a casos intrincados mas com inimigos convencionais (máfia russa, traficantes de arte, drogas ou o misterioso arqui-inimigo Cardeal) para lutas com entidades fantásticas e aparentemente irreais como as Harpias, as Sereias, Belerofonte, o Deus Pã, o conde Drácula, o ator James Cagney, xamãs africanos. Tudo isso muitas vezes com a presença leve e simpática da coadjuvante, a adolescente Allegra, órfã que está sob a tutela de Napoleone.

Com o número 54 e com a morte do odiado Cardeal, terminaram as aventuras de Napoleone. Uma série que deixou saudades na Itália, uma das melhores produções já realizadas pela Bonelli em se tratando de qualidade, originalidade e análise aprofundada.

O time de Ambrosini

A escrita de Ambrosini é dotada de uma imaginação e criatividade assustadora e por sorte, foi acompanhado por desenhistas incríveis, mas muito diferentes uns dos outros. Carlo Ambrosini cresceu artisticamente em um período em que a experimentação era imprescindível. Suas primeiras experiências como autor completo viram luz no que pode ser definido como o crepúsculo dos quadrinhos de autor, em que a referência eram autores do calibre de Guido Buzzelli, Sergio Toppi, Guido Crepax e Dino Battaglia.

Ambrosini desenhou sete edições de Ken Parker, em 1987 estreou em Dylan Dog, em 1997 criou Napoleone e em 2008 realizou a minissérie Jan Dix. Ambrosini desenhou o Tex Gigante 19 – O Preço da Vingança e hoje, está no time de desenhistas de Dylan Dog.

Ambrosini desenhou todas as capas e escreveu a maioria das histórias de Napoleone. Outros roteiristas são Diego Cajelli, Paolo Bacilieri e Alberto Ostini. Entre os desenhistas, além do próprio Ambrosini, está Baclilieri, Marco Nizzoli, Giulio Camagni, Gabriele Ornigotti e Pasquale Del Vecchio

Destaque especial a Paolo Bacilieri cuja obra autoral, Fun, foi recentemente publicada no Brasil pela Editora Veneta.

A ideia original era que a série terminasse em 8 números. Porém, devido a dedicação que o grupo de artistas deram, apoiando Ambrosini na criação das primeiras edições convenceu a Segio Bonelli Editore a prolongar sua vida editorial. Mas, as vendas não foram encorajadoras. A série terminou em julho de 2006 no número 54, em uma edição onde Napoleone enfrenta seu arqui-inimigo, o Cardeal, para decidirem o destino da humanidade.

Em 2014 Napoleone dá as caras em um crossover com Dylan Dog na edição Color Fest n.12. A história intitulada Buggy é escrita por Ambrosini com desenhos de Paolo Bacilieri e cores de Erika Bendazzoli.

Em 2016, na Lucca Comics & Games, Ambrosini fez uma prévia do volume “Napoleone: Além das fronteiras das esferas estreladas”, com a proposta de trazer três das melhores histórias escritas e desenhadas por ele mesmo, na série regular. O volume foi publicado em 30 de novembro de 2016. Em outubro do mesmo ano, foram anunciadas três histórias inéditas, escritas por Ambrosini com a colaboração de Bacilieri e Giulio Camagni que foram publicadas em três números de Le Storie, a partir de junho de 2019. Números 81, 82 e 83. Uma delas inclusive, se passa em São Paulo.

Le Storie #81, é a primeira parte de uma trilogia que marca o retorno de Napoleone. O personagem parece fisicamente envelhecido, pois o tempo passou para ele e para os leitores. O agente Boulet amadureceu e Allegra é uma jovem prestes a se abrir para a vida.

Estamos aqui em um momento delicado da vida de Allegra e Napoleone, que está com ciúmes e com preocupações normais de um pai, dividido entre o desejo de proteção e a necessidade de libertar a menina para voar com as próprias asas.

Em Le Storie #82, Napoleão 2 – Sra. Robinson, com roteiro de Ambrosini e arte de Paolo Bacilieri. Numa clínica para idosos, destruída por um incêndio, o mal reaparece numa das suas formas mais assustadoras. A relação de Napoleone com Allegra se complica, a garota, nos braços de um artista viciado em morfina, parece se perder perigosamente, sendo relegada ao papel de testemunha indefesa.

Le Storie #83, Napoleone 3 – O inferno no Céu, roteiro de Ambrosini e desenhos de Giulio Camagni. Em São Paulo, na miséria de uma favela, jovens caem como moscas, ceifados por uma nova e poderosa droga alucinógena. Tudo parece pior pela sombra do mais temível inimigo de Napoleone, o retorno do Cardeal. Napoleone cruza o Atlântico em sua caça.

Capa da última edição de Napoleone. n. 54

Obra com somente roteiros e artes de Paolo Bacilieri, autor de Fun. Foi publicado pela Rizzoli & Lizzard.

Caminho para Le Storie! Edições 6 a 10

Aqui na Confraria tínhamos: “Séries Bonelli que talvez nunca vejamos no Brasil”, que se tornou altamente datada porque felizmente surgiram várias editoras que começaram a publicar as séries que comentamos. A intenção dessa nova empreitada é apresentar todas as edições de Le Storie. Uma série altamente rica em sua proposta com histórias incríveis e que valem a pena serem publicadas no Brasil.

Já falamos das edições 1 a 5 AQUI. E continuamos a empreitada:

Le Storie #6 – Retorno a Berlim (Ritorno a Berlino)

Roteiro: Paolo Morales

Arte: Paolo Morales e Davide de Cubellis

Capa: Aldo di Gennaro

 “Osiris 2”… o que é isso?

Ninguém parece saber, mas é certo que dizer estas palavras em público pode acabar lhe custando a vida. O jovem Max, um repórter de Berlim, foi salvo da morte certa por acaso, ele está ciente disso. René, um senhor idoso que, sob o aspecto inofensivo, esconde as habilidades mais mortais de um agente secreto… Afinal, o que une esses personagens, aparentemente distantes?

O sexto número de Le Storie gira em torno de um legado. Algo irônico, já que foi a última história escrita por Paolo Morales, levado por uma doença quando ainda não tinha nem sessenta anos. Na história, a Berlim libertada fica em segundo plano e o ritmo da ação é essencialmente íntimo e silencioso, contrabalanceado pelas reverberações festivas da libertação de Berlim em 1989.

O desenvolvimento da história se passa na Berlim nos dias de hoje, e os eventos do passado e presente vão se aproximando até se fundirem.

Os desenhos detalham as figuras e não se perde muito em paisagens e ambientes. Os personagens Max e Helen tem ótimas personalidades, a ponto de “saírem” das páginas. Uma ótima história de um artista que fará falta.

 

 

Le Storie #7 – A Patrulha (La Pattuglia)

Roteiro: Fabrizio Accatino

Arte: Giampiero Casertano

Capa: Aldo di Gennaro

Vietnã, 1967. O capitão Artz tem uma desagradável missão dada por seu superior direto: entrar na selva da Indochina – no meio daquela guerra absurda – para recuperar uma patrulha que havia desaparecido um ano antes. Um punhado de soldados para recuperar outros, enviados para o desconhecido, à mercê da morte e de seus medos…

A Guerra do Vietnã é uma fonte de inspiração para autores de qualquer campo artístico: diretores, escritores, músicos e roteiristas fizeram dela parte das histórias do imaginário contemporâneo. A Patrulha, se passa nesse cenário, onde Fabrizio Accatino, auxiliado nos desenhos por Giampiero Casertano, nos fala sobre a missão da equipe comandada pelo Capitão Artz, enviada à selva em busca da Foxtrot A patrulha 2/1, que desapareceu misteriosamente.

 

Accatino cria uma boa história, bem caracterizada e sem dúvida cativante. Que mistura o drama da guerra com uma sutil, mas inquietante veia de horror, onde a dúvida e a incerteza se instala no leitor se tornando a principal fonte de tensão. Uma história que não decepciona até o dramático e comovente final.

A Patrulha tem suas raízes em filmes de guerra, não só em Apocalypse Now, mas principalmente baseada no filme coreano R-Point, dirigido por Su-Chang Kong em 2004, do qual retoma quase inteiramente a ideia e a sequência de eventos.

A luz e sombra na obra de Casertano conquistam. Algumas páginas inteiras e quadros cuja estrutura e composição são bem detalhadas, valem muito a pena.

Esta Le Storie tem um ótimo timing narrativo e fonte de reflexão sobre a guerra. A patrulha perdida é uma metáfora para uma geração perdida, engolida por um horror inimaginável. Uma “geração perdida” enviada ao matadouro para reverberar o colonialismo ocidental.

O final, como já dito, é comovente, onde a correspondência entre um dos integrantes da equipe do Capitão Artz e sua mãe acompanha os melancólicos quadrinhos de encerramento, lembrando quantas famílias perderam seus filhos em uma das incontáveis e inúteis guerras.

Le Storie #8 – Amor Negro (Amore Nero)

Roteiro e desenhos: Gigi Simeoni

Capa: Aldo Di Gennaro

O comissário Vitalis deve investigar o assassinato brutal de Francesco, irmão mais novo de sua esposa, Ada. O caso, no entanto está fadado a se complicar quando um cenário sobrenatural surge para quebrar as regras da investigação científica. O mundo das trevas em uma alma negra cresce…

Gigi Simeoni nos lança à Milão na virada do século XX com a história “Amor Negro”. A história é abundante em registros literários, que mesclam o panfleto feminino da época, processual e horror, tudo incluído em um intrigante cenário histórico. Porém, o desenvolvimento da história se precipita em um final abrupto que deixa o leitor perplexo.

A linguagem e a prosa são modernas, com diálogos sem pretensão, mas elegantes em nos situar no ar retro da Milão do início do século XX. Se o assunto é ambicioso, o roteiro é corajoso. Mistura o amante e vingativo, além do amor entre o super-policial e a bela deficiente sensível, com aspectos sobrenaturais. Estes últimos são particularmente originais, e graficamente detalhados com maestria.

Não faltam ideias em Amor Negro: das simbologias florais à representação mediúnica da vida após a morte. Porém existe a compressão de muitos elementos no espaço estreito de uma revista de quadrinhos, com número de páginas determinadas.

Por fim, Amor Negro é uma história em quadrinhos que pode ser apreciada e confirma a qualidade de toda a série Le Storie.

Teaser:


Le Storie #9: Impasse Mexicano (Mexican Standoff)

Roteiro: Diego Cajelli

Desenhos: Matteo Cremona

Capa: Aldo Di Gennaro

Ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o México – terra de “contrabando”, drogas e migrantes – um homem emerge do esquecimento após ter tocado na morte. Quem é ele realmente? Quem curou suas feridas? O que esconde em seu passado? A memória redescoberta trará consigo um cenário tenebroso de violência e vingança criminosa… mas também as sombras de presenças muito mais misteriosas. Algo que vem de longe: do abismo do tempo e do espaço…

Antes de tudo, vamos entender o que é um Impasse Mexicano, ou  Mexican Standoff, nome original da trama: Sabe nos filmes de ação quando todos levantam as armas e ficam apontando um para o outro? É isso, um impasse mexicano.

Reyes é um bandido que deveria estar morto, mas foi encontrado vivo depois de meses no deserto: em sua pele há um vestígio de cura inexplicável.

Além disso temos os seguintes elementos: Um traficante de drogas que eliminou todos os rivais e estende sua rede para além da fronteira; Estrangeiros alojados em uma base secreta dos EUA, que não são prisioneiros, mas dão ordens; Luzes que descem do céu e memórias de vidas passadas; Reyes, que pode não ser o que parece ser. Tudo isto, Diego Cajelli traz para o nono número de Le Storie.

Nos quatro quintos da história o roteiro acumula ideias: confronto dentro de uma gangue criminosa, exploração do trabalho de crianças sem futuro, contraste entre o frenesi da cidade e a serenidade das aldeias que parecem esquecidas pelo presente. Planos de vingança, amizade viril, amores perdidos, intriga, corrupção e traição. E então os alienígenas não são realmente alienígenas, entidades que não percebem o tempo, os poderes psíquicos e a transmigração das almas.

O ritmo da narrativa é administrado entre cenas de ação em alta velocidade e momentos de tranquilidade, onde são inseridos os elementos que criam expectativas. Os personagens são definidos de forma a sugerir algo mais do que é mostrado: seu passado, suas motivações, como e porque se encontraram naquela confusão de acontecimentos.

Matteo Cremona, muito eficaz nas cenas de ação, sempre construída com o ritmo adequado e com uma pincelada que comunica bem a velocidade, e capaz de transmitir, com o branco, uma sensação palpável de calor, o que aumenta a tensão.

Aí quando chega no final… a estrutura até então bem construída desmorona. Em um curto-circuito estrutural em que os elementos de mistério se revelam instrumentos para administrar um final, não dão sentido à história. Somos deixados cheios de perguntas e a dúvida de ter perdido algo no caminho.

Dá a impressão de nos encontrarmos em um episódio piloto, ou uma história pensada para uma duração muito maior e depois comprimida, sem uma revisão que adaptasse o enredo. Hábil em agradar as expectativas durante o percurso e eficaz no impacto gráfico, a história deixa, junto com muitos momentos intensos, a sensação de uma oportunidade perdida.

Le Storie #10 – Ninguém (Nobody)

Roteiro: Alessandro Bilotta

Arte: Pietro Vitrano

Capa: Aldo Di Gennaro

Ninguém… é assim que todos o chamam. “Ninguém”, o louco, o bêbado, o visionário. Como suspeitar que o maior explorador, o navegador mais incansável, se esconde naquele homem à deriva? No entanto, é assim, e Ninguém vai provar para o mundo inteiro, lançando-se em uma incrível aventura – povoada por monstros e heróis lendários – em busca do amor perdido.

Esta é a segunda obra de Le Storie com roteiro de Alessandro Bilotta e narra uma possível reescrita da saga de Ulisses, da Odisseia. Com elementos presentes em quase todas as enciclopédias de leitores ocidentais (Julio Verne, Salgari, Melville), Bilotta constroi uma história que permanece em equilíbrio entre a realidade e o sonho, entre a história dos marinheiros e uma simples viagem mental, num turbilhão apaixonado e emocionante, em que Ninguém, um novo Ninguém, procura a sua Penélope.

O autor gosta de inserir personagens e citações, verdadeiras homenagens às suas paixões, mesmo às custas de fazer da história um simples divertimento, uma homenagem às leituras do passado.

O desenhista estreante na Bonelli, Pietro Vitrano, não fica mal graças ao seu estilo denso, rico em tintas e preto, mas com boa legibilidade, como manda a tradição Bonelli.

 

Até os próximos Le Storie!

O Caminho para Le Storie: Edições 1 a 5

Foi em outubro de 2012 que saiu o primeiro número de Le Storie. Uma das últimas decisões editoriais de Sergio Bonelli antes de sua morte, meses depois. A nova série foi uma ideia de Mauro Marcheselli que tinha a intenção de resgatar uma tradição importante da Bonelli. A série cult Um Homem, Uma Aventura, histórias onde grandes mestres dos quadrinhos italianos e internacionais contavam aventuras de heróis de todo o mundo e até de épocas diferentes.

A série Le Storie nasceu com poucas características Bonelli. Não era uma série, ou uma minissérie dedicada a um personagem, ou a grupos de personagens, mas uma série composta de histórias independentes e de gêneros muito diferentes. Muitas vezes os gêneros foram misturados, noir e horror, thriller psicológico e aventuras de piratas, ação de detetives à ficção científica, além de várias com fundo histórico.

A Le Storie hoje, já passa de 100 edições e a partir da 101 realiza um resgate histórico dos antigos personagens Bonelli. O fato é que cada história é única e vale muito a pena ser lida.

Le Storie é praticamente uma série experimental, que sabe arriscar e por isso vai de encontro a gostos diversos e muitas vezes acaba por atrair leitores diferentes. A própria Bonelli sabe disso e ao licenciar para as editoras brasileiras, por exemplo, não negocia a série inteira, mas sim uma edição de cada vez. Pois cada uma tem um potencial diferente. Há certos casos que formam uma sequência, como o caso do retorno de Cassidy, Napoleone ou Hollywoodland, que foram publicadas em uma sequência de edições.

No Brasil já foram publicados quatro Le Storie, duas em Chambara (Panini), Mugiko e Sangue e Gelo pela Trem Fantasma e em breve sairá Sangue dos Mortais (Red Dragon). Com certeza, em breve sairão mais.

Na Confraria Bonelli tínhamos a série de matérias: “Séries Bonelli que talvez nunca vejamos no Brasil”, que se tornou altamente datada porque felizmente surgiram várias editoras que começaram a publicar as séries que comentamos por aqui. E agora, vamos apresentar todas as edições de Le Storie. Uma série altamente rica em sua proposta e que todas as edições tem motivos para serem publicadas no Brasil.

Servirá como um guia para leitores e editoras, uma apresentação, um Caminho para Le Storie.

Começando pelas cinco primeiras histórias publicadas na série:

Le Storie #1 – O Carrasco de Paris (Il Boia di Parigi)

Roteiro: Paola Barbato

Desenhos: Giampiero Casertado

Capa: Aldo Di Gennaro

Paris, 1790. A Revolução Francesa está varrendo o Antigo Regime, mas o fim dos privilégios marca o surgimento de novas intrigas políticas: tempos de terror estão chegando!

 

Charles-Henri Sanson foi responsável diretamente por quase 3.000 execuções, incluindo a do rei Luís XVI, por isso ficou conhecido como “O Carrasco do Rei”. Mas agora – tendo se tornado “O Carrasco do Povo” – está se preparando para ter sua própria cabeça cortada. À sombra da guilhotina, é contada sua sombria história. Uma história de morte e amor, de poder, justiça, solidão e vingança!

O Carrasco de Paris é um excelente ponto de partida para Le Storie. A associação de Barbato e Casertano é uma das pérolas mais brilhantes de toda a série. Aqui vemos uma história de atrocidade e humanidade singular. Barbato cria uma ficção histórica nos apresentando versões de várias figuras históricas como Robespierre, que aqui é tratado como um demagogo que acabou caindo no mesmo lugar dos nobres que tanto criticava.

Henri Sanson, pelo seu hábito e familiaridade com a morte entende muito a vida. Existe uma anedota na França sobre sua pessoa a qual diz que, após se aposentar do posto de carrasco, teria encontrado casualmente com Napoleão Bonaparte, o qual lhe perguntou sobre como conseguia dormir em paz, depois de tantas execuções. A resposta dele foi: “Se os imperadores, os reis e os ditadores podem dormir bem, por que eu não conseguiria o mesmo?”

Barbato nos mostra que gestos, palavras e atos de um torturador profissional podem nos mostrar uma humanidade extraordinária. Mesmo com a vida do carrasco em primeiro plano, a autora não perdeu a oportunidade de olhar para a miséria da população parisiense ou para a sede de poder que alguns grupos de revolucionários desenvolvem. Casertano acerta em nos mostrar quadros com riqueza de detalhes históricos e muita qualidade nos ângulos e momentos desenvolvidos.

A história de Sanson já foi contada no mangá Innocent de Shinichi Sakamoto e publicado pela Panini em 9 edições.

Le Storie #2 – A Redenção do Samurai

(La Redenzione del Samurai)

Roteiro: Roberto Recchioni

Arte: Andrea Accardi

Capa: Aldo Di Gennaro

Jubei desobedeceu as ordens de seu senhor e por isso deve morrer. Cabe ao jovem Tetsuo encontrá-lo e entregá-lo ao seu destino. Mas, ao longo do caminho, uma revelação inesperada mudará o curso de sua missão.

Esta história já não é mais inédita, saiu no Brasil pela Panini em Chanbara em formato americano, capa dura e totalmente colorida. O roteiro de Recchioni (Dylan Dog: Mater Morbi), é afiadíssimo. A vingança é o mote principal das duas histórias, mas aqui falaremos apenas da primeira: A Redenção do Samurai.

Ichi é um velho cego, sem dentes que precisa da ajuda dos outros, e acaba oferecendo sabedoria e conhecimento nas artes da guerra. Uma referência clara a Zatoichi, personagem que ficou famoso por Takeshi Kitano no filme de 2003, mas já muito famoso no Japão por ser uma figura mitológica japonesa. O conto se passa no Japão feudal e demonstra muita beleza e a crueza desse momento histórico em belíssimos desenhos de Andrea Accardi.

A história se move rapidamente, com apenas um flashback, pois cada momento é essencial. Os personagens carecem de uma maior introdução, mas isso é compensado em parte pelo fato de serem em sua maioria estereótipos, compreendidos facilmente pelos leitores, como o sensei e seu aluno, etc.

O ritmo da narrativa busca mais o cinema do que o mangá. Usa os tempos típicos do cinema japonês: cheio e vazio, suave e forte, silêncio e ação. Há momentos contemplativos e brilhantes de Accardi, como também velocidade e violência nas cenas de ação entre os samurais. Um volume frenético para uma série Bonelli!

Le Storie #3 – A Revolta dos Sipais (La Rivolta dei Sepoy)

Roteiro: Giuseppe De Nardo

Arte: Bruno Brindisi

Capa: Aldo Di Gennaro

Esta Le Storie tem como pano de fundo a Índia colonial em meados do século XIX. Temos aqui uma história de amor entre Elisabeth e Jim. Um romance que corre o risco de ser esmagado pelo clima de rebelião que vem crescendo no país.

A Rebelião Indiana de 1857 (também conhecida como Revolta dos Cipaios, Revolta dos Sipais ou Revolta dos Sipaios) foi um período prolongado de levantes armados e rebeliões na Índia setentrional e central contra a ocupação britânica. Pequenos incidentes de descontentamento em janeiro foram os precursores da rebelião. Posteriormente, uma revolta em grande escala iniciou em maio e tornou-se uma guerra aberta nas regiões afetadas.

Os sipais (do híndi shipahi, “soldado”) eram soldados indianos que serviam no exército da Companhia Britânica das Índias Orientais, sob as ordens de oficiais britânicos.  Os sipais estavam descontentes com certos aspectos da vida militar. Embora recebessem um soldo baixo, eram obrigados a pagar pelo transporte de sua bagagem quando eram deslocados para teatros de operações distantes. Outro problema era o recrutamento de indianos de outras castas além da brâmane e da xátria. Ademais, em 1856, os sipais foram deslocados por mar para operações na Birmânia – a viagem marítima resultava em grande impureza para os membros das castas altas.

O motivo mais conhecido da rebelião foi o uso de gordura animal na fabricação (impermeabilização) dos cartuchos do novo fuzil Lee-Enfield. Os sipais haviam sido treinados para rasgar o cartucho com os dentes para inserir o conteúdo no fuzil; os soldados hindus e muçulmanos suspeitavam que a gordura empregada era o sebo (de boi, abominável para hindus) ou a banha (de porco, abominável para muçulmanos) e, em 1857, recusaram-se a usar os novos cartuchos. Os britânicos passaram a fabricá-los com cera de abelha ou óleo vegetal, mas os rumores continuaram.

Em 1857, ocorreram incidentes como um ataque de um sipai contra um superior britânico e a recusa em usar os cartuchos. A punição foi dura: o regimento onde ocorreu o ataque foi dissolvido e os sipais que recusaram os cartuchos foram condenados à execração pública e a dez anos de trabalhos forçados.

Riquíssimo pano de fundo, não é mesmo? Mas Giuseppe de Nardo nos traz um verdadeiro Cineromanzi, uma vertente do cinema que fez muito sucesso nos anos quarenta. Uma história de amor e aventura mas contada de maneira simples, como em fumettis realizados há 60 anos atrás. Os desenhos de Bruno Brindisi se esforçam para colocar o leitor no cenário histórico, mas a Índia é vista em poucos momentos, a trama é mais focada em rostos do que nos sets.

A história seria melhor se realmente se esforçasse em ser contextualizada em um período tão importante. Algo que Alfredo Castelli faz magistralmente. Esta terceira edição é uma das mais fracas de Le Storie.

Le Storie #4 – Proibido Fumar (No Smoking)

Roteiro: Pasquale Ruju

Arte: Carlo Ambrosini

Capa: Aldo di Gennaro

O jogo… Ângelo perdeu e agora deve muito dinheiro a um chefe perigoso. Apenas Eddie pode salvá-lo. Eddie, um “cara durão”. Mas… por que pagar a dívida quando você pode matar o credor? Essa ideia é um caminho para o inferno, principalmente quando um louco maldito como Sonny Spataro fica no caminho…

Chicago dos anos 30. Logo na abertura da edição Ângelo e Eddie estão invadindo o local de jogos clandestinos de Frank Ventura, defendido pelo infame Sonny Spataro, que tem o apelido de “O Lobisomem” por sua ferocidade. O início é um bom presságio, mas o roteiro de Pasquale Ruju não é muito envolvente. A narrativa é clássica demais e torna a leitura tediosa. E nota-se que a história tem inspiração clara no filme Os Suspeitos, de Bryan Singer (The Usual Suspects, 1995).Manuela, a única personagem feminina da trama é apresentada como forma a parecer importante para o desenrolar da trama, mas é esquecida e deixada sem uso até o final.  Até os desenhos de Ambrosini, variam entre quadros incríveis e outros mais sem inspiração. É a primeira história de máfia de Le Storie, e pelo tema vale muito a leitura pois tem vários elementos das clássicas tramas de gângsteres.

Le Storie #5 – O lado escuro da Lua (Il lato oscuro dela luna) ou o melhor título “The Dark Side of The Moon

Roteiro: Alessandro Bilotta

Arte: Matteo Mosca

Capa: Aldo di Gennaro

Lloyd realizou seu sonho de infância: Se tornou um astronauta a caminho da Lua… Mas, de repente, a aventura se torna um pesadelo. Como é possível que seus companheiros tenham desaparecido sem deixar vestígios? Por que sua mente está cheia de lembranças dolorosas. Talvez as respostas estejam no lado escuro da Lua!

Em 19 de novembro de 1963, Lloyd Clark realizou seu sonho: a bordo do Selene 7, na companhia de dois outros astronautas, ele se dirige à órbita lunar para uma série de experimentos. Em 22 de novembro de 1963, a tripulação foi informada de que o presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy havia sido assassinado. A partir desse momento, a expedição começará a dar uma guinada estranha.

A 5ª edição de Le Storie é uma mistura de ficção científica, aventura e percepção psicológica. Bilotta é ótimo em alternar as cenas no espaço com longos flashbacks da infância do protagonista e ainda mostra uma série de presságios sombrios que aparentemente são aleatórios.

Um roteiro onde o início e o fim se confundem e que deixa espaço para a interpretação pessoal do leitor sobre a natureza de alguns eventos críticos. A leitura é fluida e seu único defeito é ter apenas 114 páginas. Mosca também está ótimo. Nos flashbacks ele usa um estilo limpo e claro, depois adota um estilo mais sombrio e com excelente aproveitamento de sombras nas fases da “lua”.

História ótima que lembra alguns filmes como 2001: Uma Odisseia no Espaço ou Lunar (2009).

Até as próximas cinco Le Stories!

Dylan Dog contra a censura

A Mythos vem cumprindo com o prometido e publicando a série regular de Dylan Dog em sequência, para preencher as lacunas deixadas pela publicação ao longo dos anos. Em maio chegamos na 21ª edição intitulada, Os Desaparecidos, publicada originalmente em Dylan Dog #59 (Imagem à esquerda).

Se tudo correr bem, muito em breve chegaremos à edição #69, um marco para o Detetive do Pesadelo. Intitulada no original “Caccia alle Streghe” (Caça às Bruxas), esta história escrita por Tiziano Sclavi com desenhos de Piero Dall’Agnol em 1992 foi uma maneira original e inteligente de Sclavi expressar sua opinião sobre a censura.

Dylan Dog #69 – Caccia Alle Streghe

A história em si é muito simples e distante da abordagem clássica de Sclavi. Dylan está apoiando e auxiliando Justin Moss, um amigo cartunista, cujas obras, devido a algumas cenas de violência e nudez, tem atraído a atenção de padres fanáticos, jornais e políticos determinados a impedir a liberdade de expressão dos autores para evitar que certos conteúdos sejam facilmente encontrados por menores de idade.

 

1ª edição da minissérie Daryl Zed

Um dos personagens criados por Moss é Daryl Zed, personagem que ganhou uma minissérie pela Sergio Bonelli Editore em 2020 em seis edições com 32 páginas cada, coloridas.

A investigação de Dylan fica em segundo plano pois a trama secundária relacionada aos acontecimentos principais é mais importante. Ela foca em um horror mais sutil e cotidiano: a censura, entendida como principal instrumento de controle da massa e assim detendo um poder ilegítimo que mina a liberdade pessoal de cada indivíduo.

Sclavi insere na trama Lord Cherril, líder dos padres fanáticos (na trama de Zed), e o pai da criança que lê Daryl Zed (no mundo real), pai este que chega a acusar Moss por associação criminosa. Através destes personagens Sclavi compara autoridades do presente com inquisidores do passado. Na longa introdução da história e nas páginas finais, estas figuras estão dentro de uma masmorra torturando bruxas e tentando destruir os nossos heróis.

Sclavi vs. Censura

A motivação de Sclavi para escrever esta história foi o duro tratamento que os políticos italianos estavam dando contra os quadrinhos violentos, querendo proibi-los!

Segundo os parlamentares da época, as revistas da editora ACME (em particular a Splatter, Primi Delitti e o jornal Lobotomia), eram perigosas justamente pelo fato de que as crianças conseguiam comprar facilmente nas bancas e assim, serem instigadas pelos seus conteúdos a realizarem atos não convencionais. No processo estava escrito o seguinte:

“Essas publicações podem ou são de fato compradas em bancas de jornais, mesmo por crianças; a propagação da violência contra menores é um fenômeno grave também em nosso país; no entanto, os menores devem também ser protegidos da violência moral que nos fatos denunciados é certamente perpetrada contra eles tanto por quadrinhos, como por contos. Quais as medidas que o Governo e em particular o Ministério do Interior e da Justiça pretendem adotar, de acordo com as tarefas atribuídas a eles por lei na prevenção e supervisão de publicações que contenham incitação ao crime e grave violência moral contra menores.”

Capa da Antologia da Splatter. Uma das capas mais “leves”

Embora Dylan Dog não fizesse parte do grupo de quadrinhos a que o documento se referia, Sclavi acompanhava a onda de censura que varreu o mundo dos quadrinhos no final dos anos oitenta e início dos noventa. Por outro lado, embora não o acertasse diretamente, o conjunto de reclamações, protestos e proibições veem como inimigos incontestáveis o horror e gênero splatter ou gore, que o próprio escritor havia posto no auge com a série que havia idealizado.

Sclavi em uma entrevista para o livro “Antistoria del fumetto italiano, da Pazienza a oggi (publicado em 2004) fala sobre “Caça às Bruxas”: “É um número do qual me orgulho, mas ninguém gostou. Foi a época em que havia muitos imitadores de Dylan Dog. Dylan deu origem a uma série interminável de imitações, não digo ruins, mas muito fortes, com muito gore. Isso até provocou uma questão parlamentar na qual, devo dizer, Dylan Dog nunca entrou. Em toda a polêmica espalhafatosa e sanguinária dos quadrinhos, Dylan Dog nunca foi mencionado nos jornais ou nesta questão parlamentar. Lamento especialmente que um dos signatários desta petição parlamentar tenha sido Luciano Violante.”

Sclavi se referia a um parlamentar comunista que assinou a petição. O fato impressionou tanto o roteirista que ele colocou o assunto na boca de Dylan Dog: “Louco! Dezenas e dezenas de assinaturas! Existe até mesmo a de um comunista!”

Na época, um artigo de Nicoletta Arstrom em resposta aos políticos que criticaram o anime Super Robot, de Go Nagai, o classificando como perigoso e violento, dizia que:

“As crianças não pensam em todos esses problemas. Eles aceitam ou rejeitam os desenhos de acordo com seus gostos, às vezes se revelando mais adultos e mais razoáveis ​​do que aqueles que querem ou podem administrar o que eles podem ver. […] Não há, talvez, nesse tipo de conceito, uma lógica de se comportar como tutores ou censores? Em vez disso, confie nas crianças. Eles são inteligentes!”

Voltando à Caça

De volta à história, ela tenta enfatizar, graças aos desenhos vívidos de Dall’Agnol, o quanto a própria censura gera uma série de atos violentos e/ou incorretos, além de ser ela própria principalmente uma violência moral. No decorrer da trama, de fato, acontece o colapso físico e psicológico de Justin (esteticamente parecido com Silver, diretor da revista Splatter na época); uma série de mentiras (fake news) contra Dylan Dog para aumentar as acusações contra os quadrinhos Daryl Zed; o falso testemunho deliberado dos jornais e a agressão de fãs obstinados que querem seus quadrinhos de volta. Em suma, uma série de golpes, abusos e atos brutais e não convencionais resultantes da censura.

Este enredo, habilmente desenvolvido do início ao fim, cativante, que usa a parte metafórica da história com o protagonista Daryl Zed, uma versão bombada e “americana” do Investigador do Pesadelo criada por Justin, inspirado no próprio amigo Dylan Dog.

 

Tiziano Sclavi usa as primeiras páginas da história para contar metaforicamente tudo o que acontecerá nas páginas seguintes sem revelar o final. Daryl Zed é cercado pelos inquisidores que poderão fechar definitivamente a editora. Além disso, por meio dessa estratégia, leva os leitores a reconhecer Dylan em Daryl Zed e destacar quão grande é o perigo que seu personagem corre.

Ao final, observamos Dylan, em busca de abrigo, chega a uma masmorra que já havia visto no início onde as histórias dos dois heróis acabam se entrelaçando, porém o terror maior é o que Dylan vive:

“Dylan Dog será capaz de se salvar dos Inquisidores?”

Esta edição foi republicada pela Bao Publishing com duas capas variantes, uma de Piero Dall’Agnol e outra de Gigi Cavenago, atual capista de Dylan Dog. E nós, tomara que, muito em breve, possamos ter contato com ela pela Editora Mythos, talvez daqui a poucas edições na série regular ou em uma Graphic Novel.

Mythos anuncia a publicação de Ken Parker

Em live realizada nesta terça-feira (20) no Canal Mythológico, a editora Mythos anunciou a publicação de Ken Parker. Obra máxima de Giancarlo Berardi e Ivo Millazo. Ken Parker estava sendo publicado desde 2000 pela Editora Cluq.

Coleção referência da Mondadori.

A Mythos pretende lançar a edição com base na coleção publicada pela editora italiana Mondadori. Foram 50 volumes com duas histórias cada. Estes volumes compilam toda a série regular, a série publicada em Ken Parker Magazine, os especiais até a última edição publicada por Berardi e Millazo, Até onde vai o amanhecer.

Segundo Joana Rosa Russo, responsável pelo Marketing da Mythos, a pré-venda tem início em junho e as edições serão no formato e tamanho de As Grandes Aventuras de Tex, (apesar da edição da Mondadori ser em formato maior), com capa dura e uma média de 200 páginas, preto e branco. A editora disse que dará mais detalhes sobre a edição em lives na próxima semana.

Page 1 of 4

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén