Tex Willer colorido fracassa nas livrarias italianas

A Itália foi um dos países mais atingidos pela Covid-19, logo, prejudicando economicamente a Sergio Bonelli Editore fazendo com que os planos de publicações sejam muito bem avaliados no futuro. Ao que tudo indica, uma das edições que não terá mais continuidade, devido ao custo e às baixas vendas são as edições encadernadas coloridas de Tex Willer. São edições encadernadas que compilam as aventuras do jovem Tex com mais de 250 páginas  vendidas especialmente em livrarias.

Faroestes “brasileiros” com DNA Bonelli serão publicados pela Pipoca & Nanquim

Agora é oficial: Trilogia Gatilho em cores e volume único, de Carlos Estefan e Pedro Mauro, e outro quadrinho inédito de faroeste (The Solicitor), de Gianfranco Manfredi e Pedro Mauro, serão publicados pela Pipoca & Nanquim (PN).

Tex Gold da SALVAT não será mais distribuído em Bancas

Como já informamos antes, a DINAP/Treelog não irá mais distribuir em bancas, revistas, quadrinhos e afins a partir de janeiro de 2021. Isso prejudica em especial a chegada de Tex aos leitores de todo o Brasil. Pois a Editora Mythos realiza sua distribuição através da DINAP e agora, em comunicado oficial, a Editora Salvat que lança a coleção Tex Gold anunciou que também não terá mais suas coleções distribuídas nas bancas.

A Coleção Tex Gold iniciou em 2017 com o lançamento de O Profeta Indígena com o primeiro volume custando o valor promocional de R$ 9,90. Os valores foram sofrendo reajustes chegando hoje a R$64,90. As edições da coleção são em capa dura, coloridas, papel de qualidade e geralmente com mais de 200 páginas. A série possui assinatura e era distribuída em bancas.

Das Terras Frias a mais nova casa da Bonelli no Brasil: Editora Saicã

E vem da Terras Frias a mais nova editora a publicar quadrinhos italianos (Fumetti) da nossa querida Sergio Bonelli Editore. Com sede em Rosário do Sul, RS, idealizada e criada por um grande colecionador e fã de quadrinhos Bonelli. A Editora Saicã, recém criada, fará suas primeiras publicações em 2021 por meio de financiamento coletivo, também conhecido como crowdfunding. A plataforma escolhida é o Catarse, a exemplo das várias editoras que surgiram nos últimos três anos e que publicam Bonelli.

A influência de Alien na série Legs Weaver

A Editora Graphite está com uma campanha aberta no Catarse para trazer ao Brasil a personagem Legs Weaver.

A personagem surgiu em Nathan Never n.1 em 1991 e em 1995 ganhou sua série própria. Inicialmente era para ser uma imitação da série original Nathan Never, inclusive compartilha seus personagens, mas o grande diferencial é que a atmosfera da história tem um tom mais irônico e engraçado, contrastando com o cenário profundo e envolvente de Nathan Never.

Quem eram os Justiceiros de Vegas?

Será publicado pela Panini Comics ainda este mês de novembro o primeiro volume da Biblioteca Tex: Os Justiceiros de Vegas. A edição, escrita por Mauro Boselli, com desenhos e capa de Corrado Mastantuono, terá 224 páginas coloridas pela GFB Comics. Terá o mesmo formato das edições da Salvat e virá no preço de R$ 84,00.

Na trama, Tex e seus pards descobrem alguns bandidos que foram enforcados em Vegas, mas as contas não batem quando ele percebe que a mesma gangue havia assaltado uma diligência depois de dados como mortos. Para esclarecer a situação, os pards devem enfrentar Hoodoo Brown e Dave Mather, respectivamente prefeito e xerife da cidade, aparentemente, livre de crimes.

Hoodoo e Mather são personagens reais, que fizeram história no velho oeste americano e é deles que vamos falar hoje. Os Justiceiros de Vegas.

Conheça Lavvender. Um Thriller paradisíaco da Bonelli

Giacomo Bevilacqua, recém premiado pela sua série Bonelli “Attica” na Lucca Comics & Games 2020, começou a trabalhar na editora milanesa com a história “Lavvender”. Publicada em Le Storie Especial 4, em 2017, Lavvender mostra as aventuras dos jovens Gwen e Aaron em uma ilha deserta paradisíaca, com águas cristalinas e muitos mistérios.

Esta história poderia muito bem ser publicada no Brasil no formato de Monolith, Mister No: Revolução e até mesmo Chambara. Lavvender tem roteiro, arte, capa e cores de Giacomo Bevilacqua. Publicado inicialmente em Le Storie n. 4 (2017), em 130 páginas ganhou uma edição especial em formato maior com 144 páginas coloridas.

Divulgada a capa do crossover entre Flash e Zagor

Foram divulgadas as capas do crossover entre Flash e Zagor em mais uma parceria entre a DC Comics e a Sergio Bonelli Editore. A arte da capa foi realizada por Carmine Di Giandomenico e, em 10 de dezembro será publicado o número Zero, escrito por Giovanni Masi e Mauro Uzzeo, com desenhos de Davide Gianfelice. O título da edição será “The Hatchet and the Lightning” (“A Machadinha e o Relâmpago”).

Distribuição da Bonelli em bancas está ameaçada

O ano de 2020 não está fácil para ninguém. A pandemia acelerou processos de comunicação e trabalho, e a compra de quadrinhos online teve um aumento significativo, porém outros setores que já não estavam bem sofreram uma aceleração em seu desgaste e tendem a piorar ou se encerrar, como a venda em bancas de jornal.

A Dinap e a Treelog, empresas integrantes do Grupo Abril, responsáveis pela maior parte da distribuição de revistas no país informaram às editoras no dia 6/11 estar rompendo unilateralmente todos os contratos de distribuição nas modalidades consignação praticados nas últimas décadas. O motivo alegado é a retração provocada pela pandemia de Covid-19.

Os leitores Bonelli que costumam comprar as edições da Mythos e Salvat em banca, podem não encontrar Tex no início de 2021.

Esta situação ligou um alerta na Editora Mythos que distribui grande parte dos seus quadrinhos para todo o Brasil usando exclusivamente a Dinap/Treelog. No TexWillerBlog, o Editor e sócio/proprietário da Mythos, Dorival Vitor Lopes comentou que a editora está em busca de novos distribuidores.

“Gente, tenho uma péssima notícia… a Dinap – única distribuidora a nível nacional – está para encerrar as atividades. Estamos procurando distribuidores, mas até agora só achamos dois que fazem apenas São Paulo e Rio. Queremos alternativas para as outras regiões do Brasil, mas até agora não temos. Ainda não é oficial, por isso, rezem pra todos os santos pra Dinap continuar”.

E Dorival complementou que as vendas pela internet irão se intensificar cada vez mais, “de qualquer forma, quem puder comprar pela internet, não deve esperar mais: nosso site está cada vez melhor, com muitas ofertas, e como eu já informei, temos um novo galpão de 500 m2 pra atender os pedidos”. As compras pelo site da Mythos são entregues usando os serviços dos Correios.

Com a Mythos parando de usar os serviços de distribuição da DINAP/Treelog, muitos leitores podem deixar de comprar em bancas as revistas Tex, Tex Gigante, Tex Platinum e Ouro, além de outras edições publicadas pela editora. Existem leitores que somente compram Tex em banca e nunca compraram revistas online.

Situação da Distribuição em Bancas e Comunicado da DINAP

COMUNICADO DINAP:

Caras Jornaleiras e Jornaleiros!

Na última 6ª feira a Dinap/Treelog enviou um comunicado aos Editores informando que cessará a prestação de serviços em consignação a partir de 2021, por desequilíbrio financeiro entre os custos de distribuição, obstáculos operacionais ocasionados por medidas restritivas e as receitas que declinaram durante a pandemia.

É importante esclarecer que esta decisão não representa o encerramento da operação da Dinap/Treelog, que continuará distribuindo revistas impressas da Editora Abril para os pontos de venda. Não haverá desmobilização da empresa, portanto todas as operações fiscais e financeiras (Contas a Pagar e Contas a Receber) continuarão normalmente.

As revistas fazem parte da história da DINAP, levando cultura, entretenimento e conteúdo de qualidade aos leitores por intermédio dos pontos de vendas e pretendemos continuar com esta missão.

Agradecemos a compreensão e continuamos emprenhados em servir com soluções que sejam sustentáveis para prosseguir com a prestação de serviços.

Atenciosamente

Equipe Dinap

Hoje, o jornaleiro recebe as revistas em consignação. Vende a revista e fica com 30% do valor de capa. 70% é pago à distribuidora. Esta porcentagem varia dependendo da negociação com a distribuidora, a grande maioria não chega a receber 30%. As revistas que não foram vendidas são trocadas por revistas novas. O comunicado da DINAP destaca que a empresa” cessará a prestação de serviços em consignação a partir de 2021”. Embora não se saiba ainda de possíveis alternativas para os jornaleiros face a situação, uma das alternativas é a de que o jornaleiro compraria a revista por 70% do preço de capa, se vender ganha 30%, se não vender fica com a revista em banca.

Este modelo já é realizado por algumas Comic Shops nacionais, que também negociam diretamente com as editoras (Devir, Panini, Mythos) sem usar o modelo de consignação. O que não vender no momento, continua à disposição, não é recolhido.

Se o jornaleiro já tem um público cativo, isto pode não ser problema, porém a porcentagem deve ser renegociada, já que a distribuidora terá menos trabalho e as editoras terão perda zero. Em um mercado já fragilizado, o jornaleiro terá que ter um bom caixa para bancar as compras, o que irá reduzir a oferta e impactar em toda a cadeia produtiva como Editora e Gráfica.

No comunicado, a DINAP também esclarece que, “continuará distribuindo revistas impressas da Editora Abril para os pontos de venda”. A DINAP pertence ao Grupo Abril e é natural que mantenha este comportamento. Metade da receita do Grupo Abril vem de seu negócio de mídia, a Editora Abril. A outra metade, de seus negócios de logística, a DINAP/Treelog, que entrega revistas e a Total Express, que entrega encomendas.

O Grupo Abril se arrasta em uma crise há anos estando em recuperação judicial com uma dívida que chega a R$ 1,6 bilhão. Em 2018, o então presidente da Abril, Marcos Haaland em entrevista à Istoé Dinheiro já dava uma ideia do enorme problema que era a Dinap. “Importante destacar que boa parte do problema da Abril está na Dinap. O modelo de negócio não é sustentável. A Dinap, quando faz o recolhimento do que foi vendido, repassa o dinheiro para as editoras e fica com uma parte como remuneração. O que não é vendido, a Dinap recolhe e devolve às editoras, sem cobrar nada por isso. Então, ela faz um serviço de levar e buscar sem ser remunerada. E o custo logístico é imenso. O segundo problema é que a Dinap absorvia a inadimplência da cadeia. O que não recebe dos distribuidores, cobre e paga às editoras. Então, o rombo da Dinap é gigantesco”. Na época foram demitidos 800 funcionários do grupo Abril, várias revistas encerradas e inclusive a linha Disney foi descontinuada e seus direitos foram adquiridos pela Culturama e Panini Comics.

Em 2019 o Grupo Abril foi vendido e quem assumiu a presidência foi Fábio Carvalho, especialista em assumir empresas em dificuldades.

A Pandemia e a busca por soluções

Em nota enviada às editoras, a Dinap/Treelog destacou que a grande culpada pelo rompimento de contratos por consignação é a pandemia de Covid-19. “A pandemia gerou uma disruptura sistêmica na cadeia de distribuição, atingindo de forma dramática a estrutura em que se assenta o negócio da Dinap/Treelog de distribuição de revistas e congêneres, mediante redução drástica da receita de parte substancial das vendas, ocasionada pela queda na circulação de pessoas nos canais de vendas, oriunda de medidas governamentais de distanciamento”, e reiterou, “apesar de todos os esforços feitos para a regularização da rede de distribuição, a Dinap/Treelog não passou incólume pelos efeitos devastadores e sem precedentes que a pandemia do Covid-19 provoca e continuará provocando pelos próximos meses”. Segundo algumas fontes, esta mudança da Dinap/Treelog será irreversível.

Em outubro deste ano, a DINAP já havia emitido um comunicado relacionado à Editora Globo, onde anunciou que deixou de distribuir publicações da mesma, como Época, Marie Claire, Globo Rural, Autoesporte, Vogue, entre outros títulos. As edições foram recolhidas até o final de outubro.

Em abril, devido à pandemia, a Editora havia suspendido a produção impressa de suas revistas, menos Época por ser focada em noticiário e Marie Claire por ser bimestral e retornou apenas em julho. A Editora afirmou que ainda era seguro continuar lendo o impresso, porém o medo da contaminação das revistas, ao serem colocadas no chão da rua pelas equipes de distribuição, ou nos corredores dos prédios dos assinantes, levou a que muitos assinantes suspendessem suas assinaturas.

Após a DINAP encerrar a distribuição, a Editora Globo começou a usar os serviços da Distribuidora Brancaleone.

Em 2017 a Editora Panini, responsável por publicar quadrinhos no Brasil da Maurício Produções, Marvel e DC parou de distribuir pela DINAP/Treelog e iniciou um serviço próprio de distribuição.

E a Mythos?

A Mythos mesmo vendo a DINAP ruir há anos não deixou de usar o serviço, pois há leitores Bonelli em muitos cantos do Brasil que somente a distribuidora poderia chegar. Ela vem trabalhando em deixar cada vez melhor as vendas pelo site, mas ainda gera reclamações por parte dos leitores que compram online, em especial devido ao processo de entregas.

Porém outro fator que atrapalha o crescimento das vendas pelo site é o frete que se torna muito alto dependendo da quantidade e distância que será entregue. Por usar os Correios, a Mythos se coloca na posição desconfortável de ter que depender dos valores aplicados pela instituição.

Neste mês de novembro por exemplo, onde está acontecendo uma ótima campanha de Black Friday, muitos leitores reclamam que ao chegar ao final da compra o valor do frete encarece demais e assim acabam desistindo. É necessária a fidelização dos clientes para que, caso haja problemas na distribuição em 2021, exista outra alternativa para vender os quadrinhos Bonelli para todo o Brasil.

E a Salvat?

A Editora Salvat publica Tex Gold e também pode sofrer mudanças devido à estas alterações em relação aos consignados pela DINAP/Treelog, já que suas coleções são distribuídas pela mesma. Lembrando que em 2018 a editora parou de distribuir por um tempo pois o cronograma de distribuição da DINAP havia parado. A distribuição parou em agosto e retornou somente em novembro de 2018.

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Aos Bonellianos resta aguardar e acompanhar os próximos passos da Editora Mythos e que não falte Tex para os leitores em 2021.

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As fontes das informações estão linkadas ao longo da matéria.

Foto de Capa José Carlos Francisco.

Gea fala de diversidade e representatividade

Discriminação, conflitos étnicos, deficiências, sexualidade e homossexualidade. Estes temas, mas de forma mais direta e realista são encontrados em Gea. Obra de Luca Enoch criador de Lilith e Dragonero, que atualmente está em Catarse pela editora Red Dragon.

A série foi publicada originalmente na Itália, pela Sergio Bonelli Editore, entre junho de 1999 e novembro de 2007, somando 18 edições. No Brasil, a série será publicada em 6 volumes. Cada edição trará 3 edições italianas em 396 páginas.

Enoch e sua revolução nos quadrinhos italianos

Sergio Bonelli uma vez chegou a comentar que o fumetti “Sprayliz” era um dos quadrinhos que ele mais apreciava na época. Sprayliz foi criado por Luca Enoch e publicado pela Star Comics, e Bonelli falou isso quando Enoch apresentou Gea pela primeira vez à ele (final da década de 1990). Bonelli foi muito reticente à época para publicar Gea, pois sabia que a obra representava um impacto profundo no modelo editorial da Bonelli, porém, como o sempre incrível editor que era, sabia que se fazia necessária sua publicação.

Em Sprayliz”, Enoch conta a história de uma adolescente que adora grafites urbanos e tratou de temas como homossexualidade à pornografia, racismo à drogas. Temas que não eram originais, mas pela primeira vez foram abordados em uma história em quadrinhos popular e serial. Após onze edições, apesar do sucesso de Sprayliz, Enoch deixou a Star Comics e passou a trabalhar para a Sergio Bonelli Editore. Ele primeiro desenhou Legs Weaver, e depois apresentou sua personagem: Gea.

Em meio à obras já consolidadas da editora Bonelli, Enoch conseguiu o feito de convencer Sergio Bonelli a publicar Gea. Superou a relutância natural do editor italiano em publicar quadrinhos com referências óbvias à realidade social e política atual. Por dezoito números, Enoch apresenta em Gea questões complexas além da luta do bem e do mal.

 

Gea e seu lugar no mundo

Gea é uma garota muito estranha de quatorze anos. Mora sozinha, em um prédio abandonado de uma antiga área industrial, na companhia de seu gato preto Cagliostro, ela não tem pais e é cuidada à distância por um esquivo “tio” que ela nunca viu. Gea é da casta dos Protetores, um ser com poderes particulares com a tarefa de impedir que outros seres, conhecidos como Invasores, entrem em nosso plano de existência.

Na verdade, nossa Terra faz parte do Multiverso e é um “Ponto Primário de Convergência da Dinâmica Dimensional”. Isso significa que em certos momentos, quando os planos dimensionais se cruzam, as Presenças e Energias que habitam os outros planos de existência entram em nossa dimensão. Os Protetores são colocados lá para destruí-los ou mandá-los para casa antes que causem qualquer dano.

Mas Gea também é uma garota muito normal com os problemas e paixões de sua idade. Ela toca em uma banda de rock amador com outros jovens da mesma idade. Nesse grupo ela conhece Leonardo que ficou paraplégico após um acidente de carro. Leonardo (Leo), alguns anos mais velho que Gea, tem um espírito indomável, enfrenta com orgulho e teimosia os problemas decorrentes de sua deficiência. Na banda de Gea, Leo toca bateria, instrumento que foi adaptado para ele poder tocar.

Leo além de fazer parte do elenco cômico da série é mais que um coadjuvante. Leo é uma figura real na representação de sua deficiência, e a aceita com força de vontade, lutando para que a sociedade derrube as barreiras que o impedem de levar uma vida normal.

Mas o espírito de auto aceitação de Leo não é (e realisticamente não pode ser) total. Na sexta edição é representado um dos temas mais dramáticos para uma pessoa com deficiência devido a lesão na medula óssea, o da sexualidade. Nas páginas que tratam do assunto emerge a necessidade premente de Leo por contato físico e a impossibilidade de racionalizar o problema. A atitude de Gea em relação ao amigo é intrinsecamente saudável. Ela nunca assume atitudes compassivas e não hesita em maltratá-lo quando ele se permite liberdades excessivas. Em outras palavras, ela o trata como uma pessoa normal e não como uma pessoa com deficiência!

Diversidade e representação em várias frentes

Mesmo sendo um quarinho de ação, fica nítido que Gea se trata de uma história sobre diversidade e representatividade.

A importância da representatividade pode ser exemplificada da seguinte maneira: uma criança paraplégica está condicionada a usar cadeira de rodas ao longo de toda a vida. Ela cresce vendo heróis com os quais seus colegas se identificam, mas que não fazem com que ela se sentisse representada. Então surge um herói dos quadrinhos cadeirante, e o fato de usar cadeira de rodas não o impede de combater o crime. A partir disso, a criança passa a se identificar com alguém, que – ainda que fictício, entende tudo o que ela vive sendo uma cadeirante. Entende enfim todo o preconceito e as dificuldades, e passa o ensinamento de que a cadeira de rodas não deve ser um empecilho para fazer o que se tem vontade, tornando-se um exemplo a ser seguido.

Esta “magia” da representatividade pode ser expandida para a questão de sexualidade e identidade de gênero, cultura e nacionalidade além de doenças e deficiências.

Em Gea vemos essa questão com Leo e também Siegfried, outro coadjuvante que se diferencia na trama. Jogador de hóquei no gelo, Sig como é chamado é voluntário em um serviço de transporte para deficientes físicos, “doador de voz” para cegos em uma livraria, gay declarado e comprometido com a defesa dos direitos dos homossexuais.

Como Protetora, Gea tem o trabalho de destruir as entidades que invadem a realidade. Mesmo existindo entidades terríveis e cruéis, na maioria das vezes são criaturas assustadas escapando de mundos em crise. Como migrantes de países do terceiro mundo. Gea ao invés de tomar a iniciativa de destruí-las como manda seu dever, na maioria das vezes, simplesmente os convence a ir a um limbo celestial, esperando que as convergências dimensionais os tragam de volta ao seu próprio mundo.

Com essa atitude, Gea renova a atitude tradicional das protetoras femininas, que ao longo do século optaram por uma solução não sangrenta para invasores extradimensionais. Por isso, as protetoras que tomavam a iniciativa de falar com estas entidades, (que nada mais era do que orcs, duendes, etc..), foram definidas como “bruxas” e condenadas à fogueira. Já suas contrapartes masculinas foram definidas como heróis ou santos, quando, com espada na mão, lutavam e matavam estas “criaturas malignas”.

Personagens com voz e atitude

Enoch, além de trazer representatividade feminina ao apresentar em quase todas as suas obras protagonistas femininas. Coloca nas páginas de Gea questões como o orgulho gay, propriedades terapêuticas de algumas drogas, imigração ilegal, deficiências e muito mais. Deixa que seus personagens defendam suas teses, por vezes opostas em diálogos verborrágicos muito interessantes.

Em Gea, temos a confirmação de que a presença do diferente, seja fisicamente diferente, ou por raça ou por opção sexual, durante a história da humanidade cegou a razão e desencadeou sentimentos primordiais dos homens das cavernas, que temiam que outros homens mais poderosos tirassem suas vidas. Daí o horror na representação do diferente.

Mas o verdadeiro horror está na tentativa de racionalizar esse sentimento irracional em si mesmo. Lembrando que quando o medo do outro se tornou ideologia, quando a irracionalidade se tornou conduta política, foi quando nasceu o nazismo.

Não deixe de apoiar mais esse fumetti Bonelli. Acesse: Catarse/Gea1

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