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Mister No e a Mad Maria

Sergio Bonelli era um aventureiro e muitas das histórias que escreveu com o pseudônimo de Guido Nollita saíram de suas aventuras. Em Mister No isso acontece ainda mais, pois Jerry Drake percorre por muitas vezes o caminho trilhado no mundo real por seu criador, Sergio.

Um exemplo disso é a relação de Sergio Bonelli com a Ferrovia Madeira-Mamoré, cuja história foi imortalizada no livro Mad Maria de Márcio de Souza. A intenção era construir uma estrada de ferro de 366 Km no meio da Floresta Amazônica para ligar Guajará-Mirim a Porto Velho.

A Bolívia havia perdido sua faixa litorânea no Pacífico para o Chile, durante a Guerra de Guano em 1883 ficando sem saída para o mar, meio fundamental para uma economia baseada na exportação. Por isso os bolivianos optaram trocar o Acre por uma ferrovia que fosse da fronteira do Brasil ao rio Mamoré e daí, de barco pelos rios Madeira e Amazonas, os produtos bolivianos chegariam ao Atlântico.

Em maio de 1905, o governo brasileiro abriu concorrência para a obra tomando por base o custo das ferrovias construídas em Minas, São Paulo e Rio e conseguiu apenas dois pretendentes. Venceu Joaquim Catrambi, um testa de ferro do empresário americano Percival Farquhar, que achava poder ganhar dinheiro explorando as riquezas naturais da região

Pelo contrato, madeira e outras coisas retiradas da floresta seriam de quem achasse. A obra começou em 1907. Em plena estação das chuvas, 14 sujeitos abriram a mata e construíram casas para trabalhadores, oficinas e escritórios que, mais tarde, viraria a cidade de Porto Velho.

Trens e equipamentos foram engolidos pela floresta.

A ferrovia deveria passar sobre rios que triplicam de volume na época da chuva, o que pode durar quase metade do ano. Os empreiteiros americanos logo descobriram que o ambiente insalubre e as doenças tropicais incapacitavam os trabalhadores num ritmo mais rápido do que eles podiam avançar com os trilhos.

Foi criado um processo de rodízio no qual cerca de 500 empregados chegavam todos os meses para substituir os doentes. Cerca de 22 mil operários chegaram e se foram. Segundo os registros do Hospital da Candelária, criado apenas para tratar os funcionários da ferrovia, 1.593 pessoas morreram lá dentro.

Seis anos e milhares de dólares depois, a obra ficou pronta. No mesmo ano de 1913 a exportação de borracha da Ásia superou a da Amazônia e o preço do produto despencou. Com o tempo a tão desejada saída para o mar passou a ser cada vez menos frequentada e ficou praticamente abandonada por quase 20 anos, até ser oficialmente desativada em 1966. Parte dos equipamentos foi vendida ou jogada no Rio Madeira. O exército incinerou os documentos oficiais sobre ela.

Mister No e suas aventuras com a Mad Maria

Em Mister No #111 e #112 Nolitta nos traz uma Nova Mad Maria, nome da empresa que o senhor Galvão cria pretendendo reconstruir a antiga ferrovia. Mister No e seu cliente, Almeida, um jornalista maltrapilho, visitam uma tribo de índios, que se enfurecem com os trabalhos da construção da Nova Mad Maria.

Mister No entra em conflito com os empreiteiros e descobre que Galvão não quer construir uma ferrovia na Amazônia, mas sim recuperar um baú de moedas de ouro escondido por seu pai e assim fraudar uma seguradora. Descobre também que Almeida não é um jornalista… o velho caso de clientes que enganam o bom Jerry Drake.

A edição #111, publicada em 1984 traz o título “A Lei da Violência” e a #112, “Caçada Humana”. Ambas com arte de Roberto Diso.

Em setembro de 1995 Nolitta (Bonelli) conta outra história sobre a Mad Maria, mas essa com fatos presenciados por ele mesmo. A história A Ferrovia do Diabo, publicada no Brasil em Tex e Os Aventureiros n.2 pela Mythos e originalmente publicada em Amico Treno n.8, da Ferrovia Estatal Italiana, leva Mister No ao local onde ainda existiam os restos da antiga ferrovia.

A história foi resultado de uma visita in loco de Sergio Bonelli à região. Em poucas páginas, o autor narra a trágica aventura da ferrovia fantasma tomada pela floresta, locomotivas enferrujadas e cemitérios improvisados ao longo do percurso.

Nesta página é mostrado o Cemitério da Candelária.

Bonelli visitou o cemitério da Candelária, também mostrado na história, e escreveu assim no artigo da revista Amico Treno:

“A pé, de canoa, de carro ou num Piper alugado, tentei refazer o trajeto da Ferrovia do Diabo, e encontrei as marcas de uma das maiores derrotas sofridas pelo homem moderno e tecnológico… vagões cobertos pela vegetação, aqui e ali alguns metros de trilhos e fascinantes pontes de ferro que ainda unem as margens de um afluente do Rio Madeira. E à minha volta explodia, em suas mil cores a silenciosa como sempre, a exuberante floresta amazônica, o terrível e belíssimo Inferno Verde”.

E aqui, além da estação, um trem abandonado.

Para mais aventuras de Mister No na Amazônia

Está no ar a nova campanha da Editora 85 que traz os volumes Dampyr 6, Morgan Lost 2, Nick Raider 1 e Mister No Especial 6. Este Mister No traz uma história publicada originalmente em Mister No Speciale 7. 148 páginas de uma aventura escrita por Nolitta e desenhos de Roberto Diso pela Amazônia.

James Newman, autor de histórias em quadrinhos, apaixonado pelas tiras de “Terry e os Piratas” de Milton Caniff, procura Mister No para que ele seja seu guia pela selva amazônica a fim de encontrar ideias para suas novas histórias. Mas nesta aventura ele acaba vendo que a realidade é bem diferente da ficção.

Parece mais uma aventura vivida por Sergio Bonelli em terras brasileiras.

Para apoiar acesse o link: www.catarse.me/85001

 

Fonte: Aventuras na História

Em memória de ‘Guido Nollita’ (Sergio Bonelli): 1932-2011

Nascido em Milão em 2 de dezembro de 1932, Sergio Bonelli é filho de Giovanni Luigi Bonelli, criador de Tex e de muitos outros heróis dos quadrinhos italianos, fundador da Editora Audace, e de Tea Bertasi, que em 1946 assumiu as rédeas da negócios de família. Apenas para se diferenciar do famoso pai, quando começa a escrever, opta por assinar seus próprios roteiros com o pseudônimo de ‘Guido Nolitta‘.

Fonte: Blogue Os Quadrinhos.

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