TEXTOMárcio Grings (Memorabilia)

Arte: Ivo Milazzo.

Player ilustra referências musicais do HQ western

Quem acompanha os sites Memorabilia e Confraria Bonelli já deve ter percebido — essa já é a terceira postagem (em apenas duas semanas) sobre o anti-herói western Ken Parker, personagem das HQs criado pelos quadrinistas italianos Giancarlo Berardi (roteiro/argumento) e Ivo Milazzo (ilustrações).

Ouça tambémJulia Kendall soundtrack

Quem quiser saber mais sobre KP clique AQUI. Também escrevo sobre “Até aonde vai o amanhecer” (CLUQ), impactante episódio de despedida de Ken — LEIA.

Arte: Ivo Milazzo.

Nas cerca de 90 edições lançadas, Berardi gosta de utilizar pequenas (e até profundas) imersões pelo universo musical, fazendo a ponte do leitor com trilhas-sonoras fictícias que tocam dentro da cabeça do autor, como também reverberam intimamente em cada leitor. E como o personagem está ambientado no território dos Estados Unidos, mais propriamente ligado a segunda metade do século XIX, esse mergulho também nos proporciona uma fantástica aula de história. Encontramos uma série de músicas europeias adaptadas pelos pioneiros; temas compostos no período da Guerra Civil americana (1861-1865); números de domínio público, música erudita e ópera; assim como assistimos o nascimento de gêneros/subgêneros como ragtime, folk, country, blues, jazz, números militares e da cultura indigenista, além de presenciarmos a caminhada inicial da própria canção popular estadunidense.

Arte: Ivo Milazzo.

Á vista disso, como filmes não existem sem trilha-sonora (Ken Parker é puro cinema!), construímos essa linha do tempo dentro das histórias. E Berardi facilita nossa imersão. Cronologicamente a sua trajetória, do primeiro episódio, “Vingança” (1978), até “Até Onde Vai O Amanhecer” (2019), pinçamos a maior parte dos momentos musicais nesse percurso, relatando com detalhes cada inserção. Em tempo — há licenças poéticas, por isso, se atenha no texto abaixo do player, assim você poderá entender os cânones selecionados para montar nossa playlist/soundtrack (critérios/fontes).

A ideia é proporcionar uma deliciosa viagem, ainda mais se você, assim como eu, também é fã de Ken Parker. 2h48 minutos de trilha-sonora.

A saga de Ken Parker começa em 1868, em “Vingança“, quando após o assassinato do irmão mais jovem, em busca dos suspeitos, Ken acaba se alistando no exército (como guia civil) no intuito de encontrar culpados pela barbárie que marcaria para sempre sua vida. Assim, como um bom filme, precisamos de uma elegia para capturar o espírito épico dessa narrativa. Com isso, ainda nos ‘créditos iniciais’ do nossa longa-metragem — [1]”Down A Country Line“, peça erudita do decano compositor norte-americano Aaron Copland (nosso Ennio Morricone parkerniano), esculpe o entalhe musical perfeito para iniciarmos essa jornada épica, como um bom faroeste!

Arte: Giorgio Trevisan.

Ao avançarmos na história, em “Minie Town” e “Os Revolucionários“, sem referência direta a músicas, como ponte sonora utilizamos [2] “The River“, instrumental que relembra o espírito de “Violence Montage”, de Tim McIntire e John Rubstein, da trilha-sonora de “Mais Forte Que A Vingança” (1972), filme que inicialmente inspirou o personagem de Berardi/Milazzo.

Arte: Ivo Milazzo.

Após passagem pela capital americana em “Homicídio em Washington”, quando Ken Parker depõe no Congresso Federal, terminamos a leitura do episódio com o protagonista desacordado, atingido por um da arma de fogo. Chegamos a “Chemako“, disparado um dos melhores capítulos do personagem, quando ao perder sua memória, Parker é rebatizado de Chemako (aquele que não se lembra) pelos índios Hunkpapa. Aceito na tribo, vive com a índia Tecunseh e Tebah, seu enteado. A primeira referência musical direta está na página 60, quando Ohiesa toca sua flauta em frente à tenda de Pequena Água. Ilustrando essa passagem temos o flautista Navajo [3] R. Carlos Nakai, em “Promise Given“. Na página 76, o clarim militar [4]”Reveille” enuncia um iminente amanhecer sangrento na aldeia Hunkpapa — a tribo é praticamente dizimada pelo Exército yankee, Tecunseh é morta [5].

No episódio “Sangue nas Estrelas”, já na primeira página vemos o velho Otis cavando um buraco na estrada de acesso a Paradise City, Wyoming. Ele canta um tema que diz — “Mamãe, Mamãe! Me dê uma pá que um buraco quero cavar” (em português, na tradução da época). Não encontrei canções relacionadas, assim como o mesmo acontece com o dentista Jack Boots (página 37), em “Encontro em San Francisco”, quando entoa uma canção montado a um burro — “Há uma boneca no Alabama com que eu ia me casar no mês que vem. Em “Caçada no Mar”, Ken embarca num navio baleeiro, o “New England”, e parte da tripulação brada melodicamente — “Lava a ponte marinheiro / que dançar não é tão duro” (página 39), outro número não encontrado em nossa pesquisa. No episódio “A Balada de Pat O’Shane”, já na contracapa Giancarlo Berardi nos apresenta uma música escrita por ele — fora do nosso tracklist (pois não foi oficialmente registrada)mas inclusa na imagem acima (letra) e também no vídeo abaixo (player), na versão de Fábio Magliocca (em italiano).

E eis que em “Ranchero!“, finalmente encontramos a primeira citação direta a uma canção popular, [6]”This land is your land”, do ativista Woody Guthrie (página 23), símbolo que emoldura o exato instante em que Pat O’Shane coloca os olhos no Rancho P.O., em Sioux Fall, Dakota do Sul. Em “Homens, Feras e Heróis”, no Heroe’s Street Saloon, em Dodge City, Kansas, vemos a clássica frase “Don’t shoot the pianist. Thank you“, com o músico mandando brasa nas teclas (página 6). Não há citação do standard executado pelo pianista, mas vamos ao clichê, [7] “Camptown Races”, de Stephen Foster (na versão de Jon Sarta), o mais popular dos compositores norte-americanos daquele período. Já na página 35, Ken indica o caminho do cemitério a um desconhecido caubói (página 35): “Puxa, que cara triste”, diz Pat. Montado em seu cavalo, o estranho canta — [8] “I’m a Poor, Lonesome Cowboy”, um dos números favoritos de Lucky Luke, herói franco-belga dos quadrinhos.

Arte: Ivo Milazzo.

Um pianista também dá o clima na Casa da Mamãe Rose (página 82), prostíbulo em Silverston, Colorado, e novamente não há referência musical específica no episódio “O Expresso de Santa Fé”. Nada como novamente recorrer a Stephen Foster, um dos grandes superstars pop do cenário artístico daqueles tempos — [9] “The Vilage Bells”. Em “Histórias de Armas e Trapaças”, um homem que guia uma carroça suspeita canta — “Tell me, Sister! Tell, me Brother! Has you heard the latest news?”. Na verdade, não se trata de uma música, mas sim o trecho de um poema do poeta/ativista Lansgton Hughes. O baile segue em clima de festa no lendário Mississippi Queen, embarcação com vasto espaço de entretenimento; agora estamos em “Rainha do Missouri”, e no salão principal da embarcação, uma banda anima o ambiente. Também não há nominações, mas na ilustração de Milazzo vemos um trompetista. Nascido em New Orleans, o primeiro jazz oficialmente gravada em acetato data de 1917. Em tempo — partindo da origem etimológica a palavra “jazz” ou “jass” vem de uma gíria da Louisiana, relacionada a “relação sexual”.

Arte: Ivo Milazzo.

Porém, mesmo sem certidão de nascimento, o gênero já corria nas veias do povo americano. Escolhi para ilustrar essa cena da página 66 um dos pioneiros do trompete no jazz, o bad boy [10] Bix Berbedecke, com “I’m come to Virginia.” Num dos mais emocionantes episódios da série, “Lily e o Caçador“, durante o jantar na área externa do Forte Shaw, em Montana, o cozinheiro sopra a harmônica e os scouts começam a dançar (página 16), incluindo Lily,  o cão encontrado por Ken Parker — [11] Moses Williams nos mostra como animar esse bailinho. Adiante, sozinho em uma caverna com Lily, ferido e impossibilitado de se mover (página 78), Ken interpreta à capela [12] “Alabama Bound“. Aqui você ouve a versão do lendário folk singer Peter Lafarge.

Arte: Giorgio Trevisan.

Novamente Berardi adapta um poema e o trasforma em canção nas suas história, é o que acontece na primeira página de “Era Uma Vez”, quando insere trechos de “Song of the immigrants in Bermuda”, do escritor inglês Andrew Marvell — “I see springtime in your eyes / Don’t ever don’t say good-bye.” Ken Parker vai visitar seus pais em “Lar, Doce Lar” #30, e na porta de um saloon nas ruas de Buffalo, Montana, um grupo de encrenqueiros entra porta adentro do recinto vozeando a todos pulmões [13] “Oh Suzannah” (página 50), mais uma pérola do muitas vezes mencionado Stephen Foster. Já  na página 66, Lena Kolber canta em frente ao espelho — “I love you so much, Johnny”, trecho de uma possível canção fictícia berardiana. Para pontuar esse recorte, escolhi uma antiga balada de Floyd Tillman, [14] “I Love You So”, na interpretação da cantora Dottie West. Em “A Lenda do General”, a índia Cheyenne Monaseetah entoa uma melodia indígena para acalmar um cavalo selvagem —  “Sha-ey, sha-ey, pah kô ti“.

Arte: Ivo Milazzo.

Não encontramos nada relacionado, mas deixamos por aqui uma das mais belas e difundidas peças musicais do gênero — [15“Cherokee Morning Song”, na voz de Rita Coolidge, cantora country com ascendência Cherokee. Na página 64, General Custer, comandante da lendária Sétima Cavalaria, dizima uma aldeia indígena ao som de [16] “Garry Owen”, adaptação de uma fanfarra folclórica irlandesa (ele realmente fazia isso: pedia para o clarinetista tocar o seu hino particular antes de partir para a batalha). Uma curiosidade — inspirado nesse episódio histórico, “Cavalgada da Valquírias”, de Richard Wagner, foi escolhida por Francis Ford Coppola como música de batalha do Tenente-coronel Bill Kilgore (Robert Duvall) em “Apocalipse Now” (1979) — “Adoro o cheiro de napalm pela manhã”, diz o oficial após um borbardeio.

Arte: Ivo Milazzo.

Na página 80 de “Milady“, assistimos um funeral índio, e para ilustrar essa exéquia, trouxemos uma cantiga Hualapai utilizada nesse tipo de cerimônias — [17]. Em “No Caminho dos Gigantes” o guia Ken Parker resgata [18] “A Cowboy’s Dream”. O cancan é uma dança francesa que se tornou popular nos salões de música na década de 1840, sendo associada incialmente aos cabarés franceses. Mais tarde fora levada aos saloons e casas de espetáculo dos Estados Unidos, tornando-se conhecida pela sua linha de frente com dançarinas femininas. O campositor erudito alemão Jacques Offenbach é o responsável por nos fornecer essa trilha sonora oficial — como vemos na página 11 de “Direito e Avesso” [19]. E para nossa surpresa, em “Crônica”, o carrasco George Maledon ‘executa’ (com o perdão do trocadilho) uma das peças mais sinistras do compositor italiano Nicolò Paganini, [20] “Caprice no.6 in G minor” (página 74).]

Arte: Giorgio Trevisan.

Uma das minhas passagens musicais favoritas está em “Ódio Antigo”, quando Lola, a cantora/proprietária do saloon “Blue Angel”, em Prescott, Arizona, canta [21] “Ilusions” (página 14), e [22] “You’ve Got That Look” (página 60), standards gravados por Marlene Dietrich em 1948. Duas licenças poéticas de Berardi — as composições foram lançadas no final dos anos 1940, mas representadas na HQ na década de 1870, além de Lola ser uma espécie de alterego western de Dietrich. Uma curiosidade: é comum escontramos rostos de atores/atrizes do cinema retratando personagens dos autores — o Gordo e o Magro, Marilyn Monroe  e Rita Hayworth (como vermos adiante), Clint Eastwood, Ernest Borgnine,  além de diversos outros rostos conhecidos de Hollywood.

Arte: Giorgio Trevisan.

Em “Senhoras de Pouca Virtude”, uma pequena reunião musical acontece num acampamento improvisado (página 66) enquanto vários casais dançam. No formato apresentado, flauta e vionino, temos o casamento perfeito para simplificar o legado celta introduzido pelos imigrantes irlandeses, com isso, [23] “Toss the Feathers”, certamente embalou muitas festinhas similares naqueles tempos. Dois clássicos do ideário western surgem em “Na Estrada para Yuma”  [24] “I’ll Take You Home, Kathleen”, na interpretação do divertido Dudley (páginas 26 e 31), e na página 34,  temos outra peça tradicional, dessa vez Dudley conta com a ajuda de Howie na gaita de boca,— [25] “When You and I Where Young, Maggie”.

Arte: Ivo Milazzo.

“Adah” é uma das minhas histórias prediletas da saga de Ken, além de abordar um dos flagelos mais indigestos da colonização yankee — a escravidão. É quando então o blues emerge m [26] “I’m Troubled in Mind”, triste lamento da página 7. [27] “Death No Have No Mercy” é o perfeito retrato da desolação causada pelos abusos da escravização no Sul dos Estados Unidos — “A morte não é piedosa nesta terra / A morte não tira férias nesta terra”, nos avisa a letra adaptada por Rambling Jack Elliot, sublimando a toda a melancolia da página 16.

Arte: Ivo Milazzo.

Após muitas pesquisas, seguramente posso afirmar que número musical representado por uma pequena jug band (pioneiras formações ancestrais as big bands, muitas vezes utilizando instrumentos caseiros/adaptados), com destaque para um pianista (página 64), possivelmente seja outra invenção de Berardi. Há enxertos e uma tentativa de soar coloquial num inglês ‘sotaqueado’, uma busca pela linguagem dos negros daquele período (como podemos ver na imagem ao lado) — Como regra três, utilizamos aqui [28] “It May Be My Last Night”, com Carl Davis & Dallas Jamboree Jug Band.

Arte: Ivo Milazzo.

Na abertura de “Raça Selvagem”, vemos um índio Yankton, tranquilamente/sem alarde, avisando com seu tambor a aproximação de um pequeno grupo de homens brancos a cavalo [29]. Adiante na história, em meio a um acampamento na pradaria, caubóis cantam “Sid é um bom companheiro”, tradução para o português de “For He’s a Jolly Good Fellow“, hinário tradicional britânico/americano, adaptado de “Marlbrough s’en va-t-en guerre“, peça do folclore francês (passamos batido por essa e não a incluímos no player).

Arte: Ivo Milazzo.

Em busca da iluminação, Otomi se isola no alto de uma montanha e invoca os espíritos [30]. Em “Sangue Vermelho”, os capangas de Helmer Cohen chegam celebrando no rancho com [31] “Little Brow Jug” (página 41), toada que se tornou popular na segundo metade dos anos 1800. Já na página 83, de volta à cidade, quatro bailarinas coreografam e cantam ao som de [32] “Old Rosen the Beau”, outra pérola daquele período.

Arte: Ivo Milazzo.

Em um Forte da Virginia Ocidental, em 1861, “Histórias de Soldados”, na página 12, a patriótica [33] “America: My Country ‘Tis of Thee” (notem a semelhança com a melodia de God Save The Queen, hino britânico), ganha o coro da tropa de soldados. [34] “Just Before The Batle, Mother” (página 24), uma das melhores cantigas compostas durante o período na Guerra Civil Norte-Americana (1861-1865), ilustra a o dia a dia no exército do Soldado Druse (páginas 24 e 25). O blues está de volta na página 44 com [35] “Noboby Knows The Trouble I’ve Seen”, retrato de um grupo de escravos trabalhando numa fazenda do Alabama. Em “Próxima Parada: Stockton”, de fraque completo, Ken Parker é disputado no salão de baile da cidade. Podemos perceber que há pompa e circunstância no evento, que conta ainda com uma pequena orquestra e regente. Desse modo, recorremos ao compositor alemão Richard Strauss  — [36] “Baliebte Annen-Polka, op. 137”.

Arte: Ivo Milazzo.

Já Violette Flauvel traz a baila a música francesa, e primeiramente interpreta uma adaptação [37] “La Beauté“, de Charles Baudelaire: Como um sonho de pedra, oh mortais! Sou formosa / E meu seio, onde todo homem sofre sua dor / É feito p’ra inspirar no poeta um amor / Assim como a matéria, eterna e silenciosa.” Não encontramos interpretações femininas dessa canção, por isso apresentamos o cantor Léo Ferré, responsável por um álbum inteiro apenas com adaptações do cultuado poeta francês, autor de “As Flores do Mal” (1857). Na sequência, página 49, Flauvel dedica um tema para o investigador Amos Clay: “Se vouz permettez, gostaria de lhe dedicar a primeira chanson de la soirée“. Só que após o enunciado, há uma representação de que o show prossegue normalmente, no entanto, não há indicação do número apresentado. Com isso, por aqui utilizamos uma das responsáveis pela renovação da chanson — Mademoisele Marie-Louise Damien, ou Damia, com [38] “Le Rue de Notre Amour”.

Arte: Ivo MIlazzo.

Na página 30 de “Os Pioneiros”, a Senhora Andrews entoa uma cantiga de ninar do final dos anos 1880, e ainda muito popular nos CDs infantis — [39] “This Old Man”. Em “A Propósito de Joias e Trapaças”, como funcionário de uma agência de investigação, trechos da ópera [40] “Contrato de Casamento” de Gioachino Rossini compõe o cenário perfeito para a sequência da história num teatro em Boston. Se em “Ódio Antigo”, Lena lembra Marlene Dietrich, em “Um Príncipe Para Norma“, a atriz Norma Jean é a cara de Marylin Monroe (Norma Jeane Mortenson era o verdadeiro nome da Marylin de carne-e-osso).

Arte: Ivo Milazzo.

Na página 77, um dos integrantes da trupe teatral ao qual Ken está refugiado após matar um policial em Boston, cantarola num megafone [41] “Sweet Genevieve”, tema que John Wayne interpretou em “Forte Apache”, de John Ford. Na página 96, Norma Jean nos apresenta duas canções —  [42] “After You Get What You Want You Want”, e na página 100, [43] “When I Fall in Love”, configurando num dos grandes momentos musicais da saga de Ken Parker.

Na página 15 de “Onde Morrem os Titãs”, ouvimos novamente [44] “I’ll Take You Home, Kathleen”, uma das favoritas de Dudley (Na Estrada Para Yuma), que reaparece no coro dos funcionários da Madeireira Clegg’s, na fronteira entre o estado norte-americano de Nova York e da província canadense de Ontário. Em “Silêncio Negro“, logo na primeira página temos a apoteótica estreia da caçadora de recompensas Fanny Reed, première celebrada por uma incrível performance de dança que deixa boquiabertos os caubóis num saloon no Canadá.

Arte: Ivo Milazzo.

Ao som do velho e bom piano de parede (é claro!) — não há citação do número musical que fornece a trilha-sonora para esse momento — nossa sugestão, [45] “Minuet and Gavotte”, composição do ítalo-americano Rugiero Ricci. Já na página 46, Fanny prepara a água para seu banho cantando [46] “Home, Sweet Home“, extraída da ópera “Clari, or the Maid of Milan” (1823), letra do compositor norte americano John Howard Payne, com música de Henry Bishop. Em “Lampejos de Medo”, uma nova intérprete se apresenta em mais um dos saloons do Canadá — Callie. Ela interpreta [47] “The Yelllow Rose of Texas” (página 20), tema associado à história de como a escrava Emily D. West colaborou para a vitória na Batalha de San Jacinto, decisiva na Guerra de Independência do Texas.

Arte: Ivo Milazzo.

Em La Rochelle, no Canadá, Ken faz a barba na casa de Kate e Ben. Na página 67, enquanto se barbeia canta [48] “Blood on the Saddle”, tema do ator/cantor Tex Ritter. Em “O Grande Espetáculo”, a trupe de Buffalo Bill chega em Buffalo, Wyoming. Uma banda marcial [44] anuncia as atrações para os cidadãos da cidade — hora de ouvir [49] “You’re a Grand Old Flag” (página 52), hino patriota que enaltece a bandeira e pode ser considerada um autêntico hit da Conquista do Oeste. Na Baía de Hudson, no Canadá, em “Eterno Vagabundo”, Ken e o índio Inuit Oakpeha lutam pela sobrevivência, e assim caçam e matam um urso. Ao ver o filhote órfão após a morte da mãe ursa, Oakpeha diz: “Matar pihoqahiak [urso] é missão grande que torna caçados grande. Mas, hoje um coração está triste”. Depois disso, ecoa o tambor esquimó — Ken dança ao som  de [50] “Immutaa” (página 97). Em “Aventura Humana”, em Manitoba, [51] cantos e tambores de guerra ressoam na aldeia Cree (página 66).

Arte: Ivo Milazzo.

Como num bom filme, a corrida de Ken e Brett do touro Max em “Jogo de Mentiras” (página 21 até 39) merece uma trilha sonora, nada melhor do que o banjo de Tony Trischka [52]. No mundo distópico criado por Berardi/ Milazzo em “Terra de Heróis”, na página 68, a Gilda de Rita Hayworth surge triunfal com a música indivisível de sua persona artística [53] “Put the Blame on Mame”. Nos corredores mal iluminados da Prisão de Jackson City (página 61), a lembrança de [54] “Blues Spirit Blues” assombra a ronda noturna do agente penitenciário. E ainda na casa de detenção, em “Revolta na Penitenciária”, um detento faz a faxina com sua voz emulando um característico lamento do blues, [55] “Bring Me a Little Water, Sylvie”.

Arte: Giorgio Trevisan.

Uma pequena banda marcial (página 20) solenemente demarca a partida d”A Caravana Donaver” que sai de Akron, Ohio, para percorrer, com Ken como guia, mais de mil quilômetros rumo ao Norte do Montana, na fronteira com o Canadá — [56] “America: My Country ‘Tis of Thee” (página 20) reaparece em nova versãoNuma das paradas da Caravana, com parte das carroças em semicírculo, a reunião dançante se forma e uma fogueira ilumina a pradaria. Uma cantora e um violinista animam o evento (página 93). É como se fosse uma ancestral de [57] Gillian Welch interpretando “No One Knows My Name“.   

Arte: Ivo Milazzo.

“Nos tempos da Ponny Express”, Ken e Dick cantam bêbados pela rua de Buffalo [58] “Vive La Campagnie” (página 30), uma típica cantilena de saloon de origem francesa. Na página 92, a serviço da Pony Espress, e viajando milhas e milhas sob o lombo de um cavalo, Ken interpreta solitário [59] “Little Mohee”, balada de origem inglesa adaptada ao contexto americano.

Arte: Giorgio Trevisan.

Em “As Aventuras de Teddy Parker”, Berardi novamente compõe uma de suas canções inéditas e não musicadas, quando o inescrupuloso Hood entoa bêbado (página 40) pelas ruas de Mariontown (ele retorma ao tema na página 110): “Basta um copo de rum e meu coração faz bum bum / Basta um copo de gin e meus olhos fazem tchin-tchin.” Em nossa seleção, simbolizamos essa passagem com [60]”Sweet Betsy From Pike”. Na página seguinte é a vez de Ethel, quando interpreta outro número berardiano no seu novo bordel em Circleville: “E quando a lua brilhar no céu/ Venha amor e tire meu véu.“. Na suplência, segue uma canção de saloon dos anos 1970 — [61] “Trouble”, uma das minhas cantoras favoritas, Nicolette Larson.

Arte: Ivo Milazzo.

E finalmente chegamos ao réquiem do personagem, “Até Onde Vai o Amanhecer“, derradeiro capítulo da jornada de Ken Parker, que se despede com o poema homônimo de Emily Dickinson. Agnes, a mulher de Compton-Scott, diretor do presídio, não tira as mãos do piano na sala de estar — a melodia que vaza das teclas poderia ser uma canção do sempre requisitado Stephen Foster — [62] “Santa Anna’s Retreat from Buena Vista“. (páginas 35 e 129). Ainda a recapitular sua temporada de 20 anos atrás das grades, nosso herói rememora alguns tristes episódios daquele período, nesse caso, quando Agnes impõe que um grupo de detentos ensaie e cante [63] “Silent Night”, um dos mais tradicionais hinos natalinos de todos os tempos.

Arte: Giorgio Trevisan.

Na última página de “Até Onde Vai o Amanhecer”, em apenas quatro quadros, vemos Ken e Olivia, lado a lado, acomodados do lado de fora de numa carroça, em silêncio, a observarem o amanhecer: “Traga-me o pôr-do-sol em uma xícara / Conte os frascos da manhã / Diga quanto orvalho enche / Diga-me até onde vai o amanhecer”, nos diz Emily Dickinson. Imagino Ken de olhos fechados, lembrando de vários episódios de sua vida, buscando reminiscências das pessoas ao qual conviveu e amou — um tambor índio [64] repercute lentamente em sua cabeça e lentamente as luzes se apagam… Contudo, um mundo de cores, sons e luzes invadem sua mente…

Assim como num filme, nossa jornada pela saga de Ken Parker se encerra quando so créditos finais correm pela tela. Sempre há uma canção que encapsula o espírito de uma caminhada épica como essa, e para esse recorte específico invocamos [65] “Across The Borderline“, de Ry Cooder (em livre tradução):

Arte: Ivo Milazzo.

“Há um lugar onde as ruas estão pavimentadas de ouro / É do outro lado da fronteira / E quando chegar a sua hora / Há uma lição / E com todas as perdas, ainda há esperança.

Quando você chegar cansado à Terra Prometida / E cada sonho deslizar através de suas mãos / Então você saberá que já é tarde / Porque um preço muito alto já foi pago/ De todo modo, chegou até aqui / Mas você ainda está do lado de cá da fronteira.

Arte: Ivo Milazzo.

Subir e descer o Rio / Há pegadas na areia que revelam segredos indecifráveis / Entre a vida e a morte / Esse rio corre como um sopro / Diga-me quem é o próximo a cruzar a fronteira? — En la triste oscuridad / Hoy tenemos que cruzar / Este río que nos llama más allá.

Mas a esperança permanece / Você ainda se movimenta / Alguém o chama, uma voz que surge do outro lado da fronteira…”

Arte: Ivo Milazzo.

So long, Ken!

Agradecimentos: Lucas Pimenta, Ricardo Elesbão Alves e Sandro Piola.