TEXTO: Márcio Grings (Memorabilia)

Publicidade para o lançamento de KP / Junho 1977

Desde os primórdios da história norte-americana, até a segunda metade do Século XX, várias vezes a Europa conquistou ou foi conquistada pela América. Essa viagem pelo Oceano Atlântico, com partidas e chegadas de ambos os lados, ainda continua a seguir um interessante percurso. A exemplo do que ocorreu com a Inglaterra nos anos 1960, quando diversos músicos promoveram resgates do Delta/Chicago blues para recriá-los como símbolo de renovação do rock mundial; na Itália, por intermédio de cineastas como Sérgio Leone, o faroeste, filme de aventura por excelência, é revitalizado, isso após o consequente declínio do gênero em Hollywood. Assim, obras como “Três homens em conflito” (1968) e “Era uma vez no Oeste” (1969), apogeu do spaghetti western, também impulsionaram uma nova produção de longas-metragens do gênero nos Estados Unidos. Não estou afirmando que os italianos ‘ensinaram’ os americanos a rever o ‘bang-bang’, mas sem dúvida essa retomada emprestou novo gás para produções como “Meu ódio será tua herança” (1969), de Sam Pechinpah e “Butch Cassidy” (1969), de George Roy Hill, entre outros, mantiveram o gênero em evidência com sucesso de crítica e público. No entanto, quanto aos quadrinhos western, aí o buraca da bala é bem mais embaixo. Os italianos dão um banho nos yankees!

Arte: Ivo Milazzo.

Arte: Ivo Milazzo.

Nesse realinhamento, ainda em Hollywwod, saindo da temática usual explorada na época, relembro “O pequeno Grande Homem” (1970), de Arthur Penn, e o quase esquecido “Quando é preciso ser homem” (1970), de Ralph Nelson, dramas com forte carga revisionista, quando finalmente podemos perceber novas abordagens e visões opostas a respeito dos possíveis ‘vilões e mocinhos’ dramatizados nas telas da produção cinematográfica realizada em décadas anteriores. Outra confluência dessa releitura passa pela publicação de “Enterrem meu coração na curva do rio” (1970), sensacional narrativa assinada pelo historiador Dee Brown, e livro que rapidamente tornou-se uma espécie de divisor de águas na maneira de se pensar a conquista do Velho Oeste.

Concomitante a revisão histórica do massacre dos índios norte-americanos, nesse mesmo período havia uma nova ebulição pela justiça social, os protestos contra a guerra do Vietnã, o movimento de maio de 1968, na França, além do crescente movimento mundial de reavaliação dos Direitos Humanos.

Arte:Ivo Milazzo.

A contextualização se julga necessária para retornarmos a Itália em 1974, quando Giancarlo Berardi (roteirista) e Ivo Milazzo (desenhista) dão luz a Ken Parker, personagem que chegaria às bancas europeias em junho de 1977. Inicialmente inspirado no protagonismo de Robert Redford em “Jeremiah Johnson” (Mais Forte Que A Vingança – 1972), filme de Sidney Pollack, a dupla projeta uma instantânea conexão estética com a grande tela, os amplos espaços, peculiaridade que nunca seria abandonada pelos criadores. Sempre li Ken Parker como quem vê um filme, indissociável pensar de outra forma. Cinema, literatura, história, o imaginário coletivo do faroeste dos anos 1960/70, mais humano e fálível do que Tex Willer (conhecido personagem do faroeste em HQs), somatória de repertórios que atribuem características únicas ao protagonista.

Ken nasceu em 20 de novembro de 1844, em Buffalo, Wyoming, — e também é conhecido pelos índios como Rifle Comprido, devido ao seu inseparável arcabuz Kentucky herdado do avô. Com grande parte de suas histórias se desenvolvendo nos Estados Unidos, Canadá, México e Alasca, mais propriamente na segunda metade do Século XIX,  ele começa sua saga aos 24 anos, em 1868, no Montana (edição #1), Oeste dos EUA, amplo cenário repleto de contrastes geográficos e mesmo palco onde Ken concluiria sua longa e tortuosa caminhada, 40 anos depois, em 1908, no episódio “Até Onde Vai o Amanhã”. Leia review Aqui.

Arte:Ivo Milazzo.

Ken Parker é o arquétipo do anti-herói, repleto de dramas existenciais e ligações à narrativas poético/literárias. Leitor de Walt Whitman, William Shakespeare, Edgar Alan Poe, Karl Marx, Henry ThoreauNathaniel HawthorneHermann Melville — humanista, defensor da natureza, guia civil do Exército, montanhista, trapper, pacifista, misantropo, sensível ao massacre indigenista, demasiadamente sensível ou simplesmente — um dos mais fascinantes personagens que os quadrinhos western já deram ao mundo:

Arte: Ivo Milazzo.

Arte: Ivo Milazzo.“As histórias de suas tramas ora pendulam para um poema da natureza, com tons épicos, ora para um western mais intimista” – do prefácio de Marcos Faerman em “”Os Cervos & Um Hálito no Gelo”. E ainda sentencia:
“Ken é um cavaleiro solitário debaixo de um céu que anuncia violências”. É importante relembrar que muitas das ideologias, bandeiras e crenças do personagem continuam em voga e permanecem extremamente relevantes no mundo de hoje.

Um aviso: devido as ondulações e instabilidades de mercado no país, várias editoras publicaram o personagem, e muitas vezes fora da ordem cronológica e do cuidado que o personagem merecia. Com isso, os leitores iniciantes podem encontar dificuldades em tentar entender a ordem correta da saga do personagem, e consequentemente desenrolar o enovelamento temporal da narrativa. Por aqui, tentaremos jogar luz na linha do tempo de como Ken Parker foi publicado em nosso território.

Arte: Ivo Milazzo.

Ken Parker estreia no Brasil em novembro de 1978, pela Editora Vecchi, dando início a meia década em que a revista circulou praticamente por todas as bancas do país. Assim, até agosto de 1983, são publicados 53 exemplares, faltando apenas seis episódios para completar a série original (o que foi uma grande frustração na época). Dezembro de 1989 e março de 1990, Ken retorna em dois volumes publicados pela Best News“Boston” e “Assalto á luz do dia” (54/dez e 55/mar, seguindo a cronologia italiana), para em seguida novamente desarmar os leitores com um segundo cancelamento editorial.

Ken lendo Marx, em “Greve” #58.

Com status de HQ Cult, em 1994, via Editora Tendência, o lançamento de “Os cervos & Um Hálito de Gelo” reativa o interesse pelo personagem. De encontro a esse revival, em 1999/2000, parte do espólio de Ken Parker é assumido no Brasil pelo CLUQ, a mais cuidadosa das casas editoriais que publicaram o personagem de Berardi/Milazzo aqui no país. Com supervisão de Wagner Augusto (editor chefe), a editora incialmente lança “Onde Morrem os Titãs” (em dois episódios), além do shakespeariano “Um Príncipe para Norma”.

Com princípio de recomeço cronológico, em setembro de 2000, de volta às bancas, outra editora, a Mythos retoma a publicação regular da série na Itália, publicando até 2002 mais 18 edições de uma espécie ‘segunda temporada’ do personagem. Retornando a 2000, a Editora Tendência (atual Tapejara), em parceria com o CLUQ, publica a série inicial completa , totalizando 59 edições, a lendária ‘primeira temporada’ de Ken Parker, mesma sequência de histórias interrompida pela Vechi nos anos 1980. Em 2007/2008, novamente o CLUQ publica mais quatro histórias (coloridas) — um dos grandes deslumbres da poética visual de Ivo Milazzo — “Filhotes”“A Lua da Magnólia em Flor”“Soleado” e “Pálidas Sombras”.

Arte: Ivo Milazzo.

Em 2011“Um Hálito de Gelo” ganha edição individual, pois já havia sido anteriormente editada pela Editora Ensaio ao lado de “Os Cervos”, rebatizada de “Os Filhotes” pelo CLUQ (leia parágrafo anterior). Em 2012, o CLUQ reedita “Onde Morrem os Titãs” (formato 2/1 e com nova capa), e entre 2013/2014 também coloca no mercado os inéditos — “Os Condenados”“Nos Tempos da Pony Express”“As Aventuras de Teddy Parker” e “Cara de Cobre” — mesma editora que em 2019 finalmente disponibiliza no Brasil o sensacional epílogo do personagem — “Até Onde Vai o Amanhã”, concluindo cerca de 40 anos da publicação no país.

Teddy e Ken. Arte: Ivo Millazzo.

Quanto a produção de cada episódio, além dos criadores do personagem, Giancarlo Berardi e Ivo Millazzo, um supertime de quadrinistas está reunido na obra completa de Ken Parker. Em algumas edições, Berardi divide tarefas (roteiro/argumento) com Maurizio Mantero, entre outros colaboradores. Das cerca de 100 edições/reedições publicadas na Itália, todas as capas são assinadas por Millazzo. Quanto aos desenhistas das revistas, Ivo Millazzo deixa a marca de sua pena na maior parte das edições (41), seguido de Giorgio Trevisan (12), Bruno Marraffa (10) e Carlo Ambrosini (9). Também colaboram nomes como Giovanni Cianti, Vicenzo Monti, Sergio Tarquinio, Renato Polese, Gianpero Casertano, Giuseppe Barbati, Massimo Bertolotti, Pasquale Frisenda, Goran Parlov, Giovanni Fregheri, Luca Vannini, José Ortiz e Laura Zuccheri.

Um Príncipe para Norma. Norma Jean? Arte: Ivo Millazzo.

Para quem pegou o trem andando, e possivelmente esteja interessado em adquirir exemplares da saga de Ken Parker, ou provavelmente necessite de mais orientações, mande e-mail para cluq@terra.com.br, editora gerenciada por Wagner Augusto, atual detentora dos direitos de distribuição do personagem no país.
Outro caminho é dar uma sacada no Ken Parker Blog,  plataforma  administrada pelos fãs Lucas  Pimenta João Guilherme de Lima, atualmente inativo — mas ainda no ar — e repleto de conteúdos sobre Rifle Comprido.

Arte: Ivo Milazzo.