Revelações: Os segredos de Julia Kendall

TEXTO: Marcos Guerra Tântalo

Júlia Kendall, o protagonismo de uma mulher real | | Impulso HQ

“Viva! Julia está viajando ao Brasil. E vai chegar antes de mim.” Com essas palavras, Giancarlo Berardi iniciou minha leitura de sua nova série, com o texto “Umas palavras aos Brasileiros”, abrindo a icônica história “Os olhos do abismo”, desenhada por Luca Vannini, capa de Marco Soldi. Era a Júlia número 1, lançada pela Editora Mythos, em novembro de 2004. Hoje, ela pode ser adquirida, sob demanda, no formato italiano, pela mesma editora, bem diferente dos formatinhos com quase 200 histórias que estão ali, em minha estante, olhando para mim enquanto digito isso. Sem dúvida, ela também está lá, com as marcas amarelas que registraram meu espanto.

Aquela leitura foi um impacto e tanto para mim, que já tinha me apaixonado febrilmente por Ken Parker, o “filho” anterior do célebre roteirista. Não só o amado Rifle Comprido tinha outra imagética, como um tema muito claro: O eterno viajante, o herói anônimo, o humano (Indivíduo) em conflito com a barbárie (Sociedade). Mas espera aí… Julia tinha uma casa? Um emprego fixo? Empregada? Não pegava em armas? Como assim?

Realmente eu não sabia onde estava me metendo. Em 132 páginas, Berardi não só me colocou de cabelo em pé com as chocantes sequências de assassinato (ainda mais pelo ângulo de visão do assassino, como se enxergássemos pelos seus olhos, dando sentido ao título “Os olhos do abismo”, além de ser uma citação de Nietzsche. Todas as capas da série, até hoje, apresentam duas concavidades se abrindo e um fundo preto, tal um olho se abrindo na escuridão.) como ainda me apresentou à delicadeza de uma professora que acreditava em seu ofício, uma livre-pensadora que cria na justiça, uma mulher que tinha pesadelos à noite.

E que, ao acordar, investigava pesadelos reais: Psicopatas. Sociopatas. Assassinos em série de todos os tipos! Julia, a Criminóloga, seguia os passos desses monstros e os estudava, dissecava psicologicamente, entrava em suas mentes através de seu modus operandi para a Polícia de Garden City conseguir botar as mãos neles! Eu não tinha o subterfúgio da segura distância temporal do Faroeste para me proteger: Não. Aquela história poderia estar acontecendo em qualquer cidade grande. Poderia ser com meus vizinhos, eu poderia me reconhecer em qualquer página. Talvez, entre um dos alunos dela. Ou pior, como uma das vítimas dos algozes da personagem.

Num primeiro olhar, a revista parecia a antítese do próprio gênero. Mas desconstruir lugares comuns nunca havia sido problema para Berardi: Ken Parker era um leitor de Shakespeare e Walt Whitman. Caçou uma baleia nos moldes de Moby Dick. Encenou Hamlet. Apoiou o nascimento dos Movimentos Trabalhistas. Virou escritor de suas próprias histórias (sim, o personagem se torna o escritor das próprias aventuras que passamos a ler!) e tudo isso mantendo um tom de questionamento, inquietude, a constante busca por uma humanidade que parecia escapar de seus dedos à cada nova edição.

Já em Julia, parece haver uma constante busca de sanidade num ambiente insano. Ordem? Justiça? Interpretando os perigos de Garden City como o olho sensível de uma Lei humanizada, a Dra Kendall reafirma os valores ideológicos da sociedade, buscando acreditar, todos os dias, ou caso prefiram, em toda edição, que esse sistema em que vivemos pode funcionar. Que há uma harmonia a ser mantida, mesmo que frágil e fugidia. Mesmo que para alcançá-la brevemente, ela precise ter sonhos terríveis.

“Ora”, pensei com meus botões, “se em sua série anterior, Berardi deu aquele banho de referências literárias, será que aqui ele seguirá o mesmo molde?” A resposta apareceu logo após a leitura. De maneira nenhuma que ele seguiria o mesmo rumo: O autor o extrapolou!

Crítica | Júlia Kendall – Vol.4: Dilúvio de Fogo – Plano Crítico

“Aventuras de uma Criminóloga” (Como a revista passou a ser intitulada no Brasil, a partir do número 4), é uma enciclopédia de música, literatura, cultura pop e academicismo! A protagonista toca piano, cita seus compositores favoritos e dá aula de criminologia! Sua biblioteca é invejável e quando ela entra em uma livraria para fazer compras, (edição 4. “Dilúvio de fogo”) sai de baixo! É referência que não acaba mais! Ah, você está pensando que a história fica lenta? Ledo engano! Leitura fluida e apaixonante!

Foi averiguando tudo isso, que eu decidi me lançar a uma missão ambiciosa: Compilar as referências de cada edição da série. Identificar o discurso do roteirista por detrás delas. Será que existe algum? Algum título de livro se repete? Berardi cita mais Beatles ou Rolling Stones? Prosa ou Poesia? Quais são as peças favoritas de Júlia ao Piano? Será que isso tudo é loucura de um fã Bonelliano em quarentena? Bem, essas e outras perguntas serão respondidas no devido tempo! Por enquanto, peço que me acompanhem numa divertida visitação aos artistas, escritores e músicos citados na excelente “Olhos do abismo”, onde tudo começou, a partir de minha próxima matéria!

Que seus olhos se abram longe do abismo e até lá!

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  1. João Vicente

    Texto maravilhoso! Na espera do próximo. Forte abraço!

    • Ricardo Elesbão Alves

      Obrigado João Vicente. Todos os méritos para o Marcos Guerra. Só um grande fã e colecionador poderia ter pensado em fazer algo assim. Esperamos todos em breve pelo próximo. Grande abraço!

  2. Sérgio

    Caro, João só descobri Júlia em 2018,na promoção de uma comic shop da minha cidade!De lá pra cá,li coisas maravilhosas da SBE:Dylan Dog,Mágico vento,A outra face,MM…nenhum me dá mais satisfação do que os mergulhos na alma proporcionados pelo gênio Berardi!Pena que essa iniciativa do formato fummeti se encontre em meio ao caos que vivemos!

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