DYLAN DOG RETORNA AO BRASIL

Depois de 11 anos fora do mercado brasileiro, Dylan volta em grande estilo em três edições especiais. A última vez que fora publicado, foi justamente em uma série mensal pela Editora Mythos (outra grande responsável por manter Tex vivo e forte em nosso país), que acabou durando 40 números, para desespero dos fãs. Mas este ano a Editora Lorentz quebrou o hiato: Adriano Lorentz, responsável pela casa editorial falou um pouco mais sobre a volta deste clássico.

Na época da primeira notícia sobre a volta de Dylan (que causou um grande murmurinho entre a comunidade leitora de HQs em geral), Adriano expressou seu sentimento sobre a publicação: a nossa intenção era lançar uma edição especial de terror em 2016. Devido a atrasos, pensamos em algum material estrangeiro de boa qualidade que se encaixaria nessa proposta, comentou Adriano.

“Pensava que alguma editora grande publicaria o personagem, por conta da data, mas os meses foram passando e nada acontecia. Então, começamos a negociar os direitos. Um ponto decisivo para a escolha foi sermos fãs do personagem, e gostaríamos de dar esse presente a Dylan e aos outros fãs”, relembrou.

A história de Dylan no Brasil é um pouco traiçoeira em termos comerciais. De acordo com o pessoal da Universo HQ, em 2002, o personagem parecia que, finalmente, consolidaria um merecido sucesso no Brasil, ao retornar às bancas pelas mãos da Editora Mythos. Mas mesmo com duas premiações consecutivas no Troféu HQ Mix, como melhor publicação de terror de 2004 e 2005, além da marca recorde de 40 edições brasileiras, não foi o bastante para manter o título em terras tupiniquins, resultando no cancelamento de suas publicações.

Inexplicável? Talvez. Embora seja unânime entre os leitores e aficionados pelo investigador (e até mesmo reconhecido por leitores casuais que não sigam a franquia), a inteligência de sua trama e inventividade de sua história não foram suficientes para segurar sua continuidade nas bancas.

E o motivo talvez vá um pouco mais além do que “qualidade” de publicação ou de “distribuição”. Sabemos que hoje, muitos colecionadores (assim como inúmeros gamers), não se contentam com uma boa história em modelo tradicional: se não for uma publicação em um papel de qualidade com gráfica impecável, muitos ignoram a história e passam ser grandes e intensos críticos da franquia por conta do produto levado a banca.

Mas o que estes leitores se esquecem é que entre a publicação, a compra de direitos autorais para trazer a história, a confecção e a distribuição, há altos custos em jogo. No Brasil, sabemos que o mercado editorial não é dos mais “brandos”. É necessário ponderar que as Editoras, antes de meras “editoras”, são empresas e atuam no mercado financeiro como qualquer outra, suportando custos, tentando repassar o mínimo de reajuste, e ainda buscando alternativas para manter os títulos sob guarda em banca. Então, nem sempre a infelicidade do encerramento de um título se deve pela desistência da Editora, mas pela falta de comprometimento e de compreensão do público que a consome.

A via de mão dupla entre produção e consumo acaba gerando responsabilidades para ambos os lados: tanto a editora para se esforçar a fazer o melhor, quanto ao leitor em colaborar com a venda (ou compra, neste caso). É evidente que dentro do cenário que estamos retratando há nuances, e não há “santos” na situação. Mas a verdade é que, o poder para mudar isso está nas nossas mãos. “Mas uma andorinha só não faz verão”, pode ponderar o leitor. De fato, uma só não. Mas se juntarmos um bando, a situação muda de figura.

Logo a questão da volta de tais publicações envolve um mais do que só dinheiro ou vontade: É PRECISO que os leitores APOIEM a volta das séries de maneira consolidada e organizada. Divulguem, comprem, fomentem, mandem carta, e-mail… liguem. É de suma importância para editora que haja lastro de leitores para manter suas distribuições. Se você é fã, compre; faça propaganda. Se não gostou da qualidade, avise a editora, mas não a DEPRECIE. Lembre-se que se não fosse por ela você sequer leria um título de seu personagem agora.

Críticas são sempre bem-vindas. Mas cabe ao público tecê-las de forma a incentivar e contribuir. Não é nada elegante ver muitos reclamando e prejulgando uma Editora que se esforça para manter uma publicação, ou então que conseguiu, a duras penas, trazer de volta um determinado título e os leitores só massacram nas opiniões. No caso da Editora Lorenz, há um IMENSO esforço para trazer o máximo de qualidade ao leitor, que conseguiu ainda colocar em mercado por um preço acessível. E a publicação é simplesmente incrível: formato italiano em acabamento impecável em verniz de capa a capa (plastificada) e miolo com papel branco de excelente qualidade. Sem falar da prensa das páginas: impecável. A lisura gráfica da publicação é incrível, e se tem a impressão de se ler um pequeno livro e não uma HQ.

 

PRIMEIRA EDIÇÃO – DYLAN DOG: RETORNO AO CREPÚSCULO

 

Lançado no final de Abril de 2017, Dylan Dog saciou a sede dos fãs e dos leitores curiosos. A distribuição começou seletiva pelas maiores capitais do Brasil, mas, em pouco tempo, bancas nas regiões metropolitanas também receberam as edições.

Com roteiro do criador de Dylan Dog, Tiziano Sclavi, o gênio que deu vida a Dylan, e arte de Giuseppe Montanari e Ernesto Grassani, publicada originalmente na revista Dylan Dog nº 57 de julho de 1991, mostra o detetive do pesadelo precisando retornar à cidade chamada Inverary, um lugar preso no tempo onde os mortos continuam vivos e todos repetem o mesmo dia eternamente graças às intervenções de um misterioso médico. A história é uma continuação direta de A Zona do Crepúsculo, publicada em Dylan Dog nº 7 da Editora Record, mas, ao contrário dos gibis de super-heróis que prendem os leitores em uma teia cronológica inescapável, o leitor iniciante pode embarcar na aventura sem qualquer problema, pois Sclavi preenche todas as lacunas temporais com recordações e flashbacks na medida certa para que o leitor não se perca.

Como esperado, quem já conhecia Dylan ficou surpreso com a qualidade do material, escolha a dedo da história e com a notícia de que outras duas edições estavam a caminho. “Não sabia que Dylan estava voltando para o Brasil, foi uma grande novidade! Espero que outros [personagens] também possam reaparecer por aqui”, declarou Celso Alvares, leitor do interior paulista.

“Nunca tinha lido Dylan, mas adorei o gênero. Foi, sem dúvidas, uma grande novidade. Vou acompanhar as próximas publicações até pelo empenho da editora. Minha irmã também se amarrou no enredo.”, ponderou o leitor Luiz Sansone, da região metropolitana de São Paulo.

Na segunda quinzena de maio a distribuição já estava bem avançada. Numa pesquisa de campo, conseguimos apurar que a distribuição de DD estava seguindo o mesmo padrão da feita em Julia Kendall: três edições por pedido nas bancas. Conversando com o dono da “Banca FIESP”, localizada na Avenida Paulista, em São Paulo, ele nos contou que, embora algumas bancas ainda não tivessem recebido o material, leitores já haviam manifestado interesse pela publicação, o que nos causou uma enorme surpresa, para lá de positiva!

E a tendência ao questionamento logo surgiu: muitos leitores começaram a questionar quando a segunda edição seria publicada, chegando a comentar e relatar a ansiedade pela próxima publicação. E esse comportamento revelou a boa aderência que a iniciativa de Editora Lorentz teve!

Se você não conseguiu achar a primeira edição na sua cidade ou se está fora do país, entre em contato diretamente com a editora pelo e-mail: editoralorentz@hotmail.com

 

A SEGUNDA EDIÇÃO – DYLAN DOG: MANCHAS SOLARES

Depois de muito tempo (não dá para esperar alguns meses OK?!), a segunda edição FINALMENTE foi anunciada! Lançada neste mês de agosto de 2017, o gibi já foi encaminhado e a distribuição no país está prevista para começar, oficialmente, no início de setembro.

A história Manchas Solares tem roteiro de Pasquale Ruju, já conhecido dos texianos, que inclusive colabora com diversos títulos da Casa Bonelli. Em consulta ao Tex Willer Blog, podemos conferir um pouco sobre a trajetória de Ruju, que começou seus trabalhos na casa editorial em 1994, com Nathan Never. Depois, Mauro Marcheselli o contatou para o primeiro trabalho com DD, sugerindo um roteiro de uma história curta, que veio a ser publicada com o título de “O Vizinho de Casa”.

Ruju também foi responsável pelo magnífico trabalho em Cassidy e Demian, uma minissérie em 18 volumes, que infelizmente só chegou a quinta publicação no Brasil.

Os desenhos ficam a parte, já que saíram das habilidosas mãos de ninguém menos que Bruno Brindisi, um grande gênio no trabalho com sombras, que faz o mais delicado rosto ficar carregado de história e emoção com alguns toques peculiares de sombreamento. Brindisi tem uma tendência magnífica em DD e imprime a essência no personagem. Suas linhas firmes e bem colocadas no jogo de luz dão a exata profundidade aos desenhos.

O roteiro, para variar, não destoa e segue no tema principal de Dylan Dog:  o Terror inteligente e bem colocado, que vai agradar quem gosta da temática e aos novatos que ainda não conhecem esta peculiar obra.

Os leitores também podem comprar Dylan Dog diretamente com a editora, pelo e-mail editoralorentz@hotmail.com.

Dylan Dog #2 – Manchas Solares segue a publicação no formato italiano (15,5 x 21 cm), com 100 páginas, história completa e inédita em uma incrível tiragem reduzida, ao preço justo e acessível de R$ 16,00!

 

A TERCEIRA EDIÇÃO (EM BREVE) – DYLAN DOG: MATER MORBI

E para já deixar todos os leitores com o coração na mão, a capa da próxima edição saiu em grande estilo e primor nas costas do segundo volume.

Mater Morbi foi recentemente lançada em Portugal e ganhou destaque no Tex Willer Blog. A trama promete ser um primor inédito a ser publicado aqui em solo tupiniquim.

Argumentista, jornalista e atual responsável editorial da série Dylan Dog, Roberto Recchioni trabalhou para as principais editoras italianas, da Disney à Bonelli, mas tinha escrito apenas duas histórias de Dylan Dog, quando o editor Mauro Marcheselli que era leitor assíduo do blog de Recchioni onde ele descrevia os seus frequentes problemas de saúde, que o levaram por diversas vezes a uma cama de hospital, se lembrou que ele, que estava sempre doente, seria a pessoa ideal para escrever uma aventura de Dylan Dog justamente sobre… doenças. Uma aposta claramente ganha, pois a perturbadora história, não só teve imenso sucesso junto dos leitores de quadrinhos, como provocou mesmo um intenso debate na sociedade italiana, sobre temas como a eutanásia, encarniçamento terapêutico e relação médico/paciente, que envolveu a própria Ministra da Saúde da época e chegou à televisão e às primeiras páginas dos jornais.

Os desenhos de Massimo Carnevale dão um show à parte. Aqui ficamos diante do literal casamento entre roteiro e desenhos. Carnevale desenhou muitos títulos na década de 90 na série Skorpio, que se estendeu até 2004. Passou pela DC Comics (Vertigo), com a atuação primorosa na capa do título “Y – The Last Man on Earth”, em 2007. Desde o mesmo ano trabalha para a Sergio Bonelli Editore, atuando com o roteiro “Fuori Tempo Massimo” de Roberto Recchioni para a primeira Dylan Dog Color Fest e Dylan Dog número 280 “Mater Morbi”. Com as letras de Lorenzo Bartoli “A Heavy Situation”, ilustrou Dylan Dog Color Fest Humor.

Há que ponderar que também desde 2007, ilustra as capas da Northlanders, da Vertigo. Ele também cobre a série “The Talisman” de Stephen King pela editora de Del Rey e para Dark Horse, nas capas de Terminator 2029 e Mass Effect: evolution. Ainda para esta última, ele produziu doze capas para Orchid escrito por Tom Morello e ainda para Conan The Barbarian, de Brian Wood.

Então, para deixá-los com muita vontade, fica nossa rápida apresentação!

 

QUEM TROUXE DYLAN: ENTREVISTA COM ADRIANO LORENTZ

Além de um grande amigo, Adriano é uma pessoa acessível e preza muito pelo contato e pela colaboração de todos os fãs de Dylan e Bonelli. Por isso, quando fiz o pedido para uma entrevista exclusiva sobre o lançamento de nosso querido investigador, ele não pensou duas vezes 🙂

Joana Russo –  Bem, Adriano, como foi a experiência de lançar um título tão renomado, embora pouco conhecido no Brasil, como Dylan Dog? O que te motivou a trazer isso para o mercado brasileiro?

Adriano Lorenz – Primeiro faz cerca de 10 anos que Dylan Dog não era publicado no Brasil. Nenhuma grande, média ou pequena editora se interessou. E Dylan completou 30 anos de criação ano passado, em 2016. Sempre quis lançar alguma coisa… Uma revista especial de algum personagem europeu, talvez. Mas confesso que Dylan Dog, Bonelli, nunca achei que fosse conseguir, até por causa do histórico de quem lançou Bonelli no Brasil: Vecchi, RGE, Globo, Record, Ediouro, Mythos, Conrad… Ora, impérios em suas épocas ou médias/grandes… Mas criei coragem e então convenci minha mãe a criar a editora para realizar as partes burocráticas. Eu, nas horas de folga, faço a divulgação. Pela primeira vez no Brasil uma editora foi criada para publicar especificamente um personagem Bonelli.

JR –  Quando você pensou no formato na revista… Como foi a escolha? A decisão do uso do papel de melhor qualidade e no tamanho tiveram influência das originais Italianas? Você Acha que isso passa por uma boa impressão ao leitor?

AL– Sempre troquei ideias com o pessoal do forum texbr. Então o formato, miolo e tudo mais, fui forjando junto com a galera. Primeiro penso como leitor, como eu quero a revista. Ajudou porque o pessoal do fórum é leitor também, e então pude constatar que os participantes também esperavam o mesmo que eu das publicações. No fundo, acabou sendo mais simples de estruturar a proposta que fosse capaz de atender a esta demanda, por assim dizer. A questão da vendagem é atrativa, pois foi possível trazer a publicação a R$16 reais com miolo em papel branco. Agora vamos esperar o resultado.

 

JR – Quantas publicações foram adquiridas pela Lorentz? Há intenção de continuá-las?

AL – Adquirimos 3 edições de Dylan Dog, e claro se continuarmos sempre tendo apoio, e as vendas cobrirem as despesas, vamos tentar continuar.

JR – Bem, como vimos você é fã de Bonelli! Na sua opinião, o que Dylan tem que outras HQs de gênero de terror não têm?

AL –  O material norte americano atual no gênero terror é muito fraco… Não é atoa que Dylan recebe diversos prêmios.

JR – Qual sua expectativa para estes lançamentos? Há espaço para Dylan Dog no Brasil?

AL – Sou sempre otimista, mesmo sabendo de toda a dificuldade do mercado de HQs. Mas há espaço para Dylan sim, só precisamos de tempo para chamar aqueles antigos leitores de volta.

JR – Como está sendo realizada a distribuição de Dylan? Há previsão de distribuição nacional? Aliás, desde já, há como comprar direto com vocês?

AL – Temos um acordo com a distribuidora. Para Dylan continuar temos de atingir um mínimo de vendas nas bancas, até por conta da tiragem reduzida. Mas pedimos para a distribuidora para que envie para as  maiores bancas das capitais e maiores cidades de cada estado, visando uma melhor aderência. Dito isso, quem mora em cidades menores, que não passem de 60 mil habitantes, pode adquirir diretamente conosco, com frete reduzido, que varia de R$2,00 a R$3,50. Mas para quem mora nas grandes capitais e regiões metropolitanas, peço para que aguardem um pouco e busquem diretamente na banca de sua cidade. Isso vai fortalecer nossa permeabilidade. Mas se mesmo assim as edições estiverem esgotadas, entrem em contato conosco!

JR – Na sua opinião, o que falta para que outros títulos descontinuados no Brasil voltem à vida?

AL – Difícil responder. Estamos começando agora, mas espero poder manter Dylan Dog, porque fizemos uma bela edição. Tanto que quem viu disse que é a mais bela e caprichada edição de Dylan no Brasil. Mas sempre respondia que não somos empresários e sim leitores, o que ajudou em buscar um produto final como o oferecido. Resultou nossa pesquisa em algo simples: uma revista formato italiano de capa plastificada e miolo em papel branco com preço de R$16,00. Para mim é uma revista que eu gostaria de comprar, que acho a ideal, tanto em formato quanto em preço.

JR – Adriano, os leitores Bonelli desejam toda melhor sorte nesta nova empreitada e principalmente que nosso investigador NÃO volte a sumir destas terras tupiniquins! E você, leitor, pode ajudar nesta nova empreitada: adquira essa magnífica trilogia de Dylan Dog!

AL – Agradeço aos fãs! Os personagens Bonelli são todos parte de uma família. Li Zagor, “O retorno do vampiro”, da Globo em 1988, com 10 anos, e, no mesmo ano, Ken Parker. Logo fui correndo atrás de outros. A Bonelli tem material ótimo: DD de terror, Nathan Never de ficção científica, Julia – eu considero suspense/policial (e não aventuras de uma criminóloga…), e é ótima no gênero, faroeste com Ken Parker, e muitos outros, desde os mais tradicionais, como Tex, Histórias do Oeste, e mais variados como Zagor e Mágico Vento. E não esquecendo uma maravilhosa revista de aventura: Martin Mystère. É difícil falar de tudo… são tantos e tão bons personagens! Bem, encerro agradecendo a vocês pelo espaço e ajuda!

 

NOTAS SOBRE A PRIMEIRA EDIÇÃO – O ESPETACULAR ENREDO DE SCLAVI (SEM SPOILERS).

Já há algum tempo alguns de meus amigos me recomendaram a leitura de Dylan Dog. Mas confesso que, pela temática, recusei a adquirir um exemplar. Sim, não sou grande fã de terror, até porque confesso o relativo medo com os enredos. Passo muito tempo sugestionada… MAS…

Desde que vi que o dito personagem voltaria à vida e pelas mãos de um amigo, eu decidi colocar o medo “na caixinha” e enfrentar o tabu: comprei o exemplar sem pensar duas vezes (até porque se eu voltasse a pensar talvez recuaria). Adriano me recebeu de braços abertos e quis mostrar-me o quanto Dylan é enriquecedor. Contou-me da densidade da história, que nem sempre as pessoas gostavam dela porque a trama é difícil, mas de uma qualidade inegável. Até me alertou que talvez eu pudesse “torcer o nariz” por causa do gênero que eu gosto (faroeste), e poderia ser um pequeno choque de leitura.

Bem… Os conselhos foram dados, a coragem foi tomada e então, naquela noite e início de madrugada, do dia 03 de maio de 2017, eu comecei a leitura oficial da HQ (ok, é um pouco estranho a pessoa relatar que tem medo de escuro e que leu uma história de terror neste ambiente… Não queira entender, mas já que estava disposta, vamos fazer direito!).

Mas antes de falar do conteúdo, necessário apontar a qualidade externa da publicação. O formato italiano é confortável de ler e não exige muito esforço dos olhos, o que proporciona uma leitura gostosa. O clássico preto e branco vem bem destacado num excelente papel branco de boa qualidade. A capa é em verniz, como já alertei também de antemão. O acabamento é incrível, e não se pode dizer que é uma revista frágil. Sem dúvida, vale cada centavo do preço: R$16,00.

Logo nas primeiras páginas preciso dizer que Dylan não poupa o leitor de um breve contato com figuras estranhas e que causam um certo impacto: não há cerimônia em ilustrar peles caídas dos corpos mesmo que, a priori, seja mais contido. O alerta de meu amigo era certo: o que eu estava para ler das primeiras cinquenta páginas iriam me fazer entender o amor que ele nutria pela franquia e me mostraria as razões dele ter trazido o personagem para o Brasil mesmo com todas as dificuldades: a zona de conforto que para nós é algo natural, se torna horrenda e te faz entender os motivos pelos quais nunca podemos deixar que ela (a zona do conforto) nos sugue para seu vórtex.

Não preciso dizer o quanto fiquei perturbada com a história. Passei algumas horas remoendo depois que finalizei a revista, estando determinada a ler novamente. Dito e feito: pela manhã, comecei novamente a história, que deu-me outro panorama de interpretação. Uma vez lido e entendida a mensagem subliminar, você se auto questiona se sua vida deve continuar como na HQ. O amor que vem, a vida que vai. A morte que chega, as intrigas que transcendem… Tudo fica num liame muito fino que pode e DEVE ser rompido. Seja pela felicidade, pelo amor ou pela dor. A razão não importa: o que importa é nunca deixarmos que a vida nos consuma de passagem, tão automaticamente, esperando pela morte depois de repetir tudo que os outros, em sua maioria, repetem como mantra há séculos.

Não… Dylan está longe de ser o exemplo perfeito para alguém. Mas como todo personagem Bonelli, e aqui também coloco Tex, Dylan é corajoso. É leal a seus propósitos. É justo. É sagaz. É fiel a seus amigos e tem uma inteligência fora de série. Tex também é assim (embora para mim seja mais do que só um homem a frente de seu tempo com dotes admiráveis). Cada qual em sua época ambientada.

Dylan não é gibi para qualquer um. Talvez nem seja para mim. Mas uma coisa é certa: vou ler novamente esta história… esta e outras. Dylan, para mim é como o “Pequeno Príncipe”: a cada fase da vida, uma nova interpretação é dada, porque a leitura, diferente do que já vimos em outros do gênero imersivo, é moldada a cada idade, fazendo que a percepção da vida pelo leitor troque de faceta, ajudando a si mesmo a vencer seus paradigmas.

 

NOTAS SOBRE A SEGUNDA EDIÇÃO – AS MÚLTIPLAS FACETAS DE RUJU E BRINDISI

 

“Manchas Solares” é minha segunda leitura no universo de Dylan Dog. Aprendi a gostar do personagem por conta desta coleção que a Lorentz vem trazendo e confesso que estou realmente apaixonada pela Série. Assim como muitos, sou leitora de primeira viajem, e espero sinceramente que os veteranos apoiem os ingressos, pois essa comunhão e troca de conhecimentos é fundamental!

A respeito do que já consignei, Ruju já é um antigo conhecido dos texianos, assim como Brindisi.

Foi simplesmente espetacular vê-los em ação em um enredo “extra” western, em que eu conhecia. Pude provar de um roteiro inteligente que convida o leitor refletir sobre o liame entra os conceitos de paraíso e inferno. As inteligentes deduções de Dylan, dão lugar a um ceticismo exagerado de nosso “herói”, e Ruju chega a brincar e até mesmo induz quem lê a chegar nas mesmas conclusões aparentemente superficiais e imediatistas do personagem. Mas, usando de sua forte perspicácia de escrita, logo nos prova o contrário: nem tudo que parece é, e tirar conclusões precipitadas pode às vezes provocar situações irreversíveis.

E é sob este prisma que o genial roteiro de “Machas Solares” se desenrola. Assim como em Sherlock Holmes (série, BBC, 2010), Dylan Dog mantém o leitor focado na “ciência da dedução”, que em boa parte, faz o ato da filosofia uma constante da leitura. E porque disso? Simples: assim como na primeira história, temos problemas comuns e cotidianos que incomodam a todos, mas, em sua maioria, as pessoas simplesmente travam esses questionamentos dentro de si, não externando suas opiniões e vivendo meramente de um automatismo exagerado e sem sentido.

Novamente neste roteiro temos Dylan quebrando o paradigma em si mesmo: a questão não como acontece, mas sim porque acontece. É essa sensação absurda do autoquestionamento que dá a DD um status totalmente distinto do que se tem em outras HQs da Sergio Bonelli Editore. Mais: em termos mundiais, pelo que já estudei a respeito, não temos uma série com enredo de terror/suspense que faça o leitor passar por uma digressão.

Evidente que quando falo isso, não só eu, mas você também, devemos ponderar que há duas espécies de leitor: o crítico e o casual. O crítico quer o máximo da história: ele quer a motivação por trás da história; seus reflexos, seus questionamentos, sua diferença no mundo em concreto. Ele tira do papel e passa para a vida. Já o leitor casual lê com um ar jovial: ele até pode entender a trama, mas não se seduz a ponto de se envolver espiritualmente com ela.

Veja que nesse ponto, podemos ter um leitor casual de DD e crítico de Tex. Nada impede. São apenas formas de absorção diferenciada.

Por isso, mais uma vez a Editora Lorentz fez uma aposta sensacional e perturbadora, com um roteiro magnífico de Ruju, que aborda de maneira simples, mas, ao mesmo tempo, profunda a questão do que é a vida e o que é a morte e todo o subjetivismo que impera nestes conceitos. Ilustração vem pelas mãos de Bruno Brindisi, com seu traço mais delicado e estático, que arrematam uma excelente obra que, definitivamente, não pode faltar na sua estante. Atentem para o detalhe do Dylan de Brindisi: ao contrário de seus antecessores, Giuseppe Montanari e Ernesto Grassani, Bruno carrega em um traço mais fino para o personagem, deixando o investigador mais “vulnerável” para demonstrar emoções mais delicadas de questionamento e análise. Mas curiosamente o ritmo de desenhos que empregou em DD é mais estático: nem sempre tenho impressão de “assistir” as tiras”, mas de realmente apenas vê-las. E sim, tem diferença.

É importante alertar que, nem todos gostam dos traquejos de Bruno e podem avaliar como uma obra inferior, como muitas vezes acontece rotineiramente, com Roberto Diso em Tex. É uma questão de gosto, de fato, mas nem por isso a obra fica reduzida a uma nota inferior do que ela factualmente merece.

Vale ponderar que em compensação, vi muitos cenários bem limitados e harmonizados para a HQ. Enfim, é uma questão de gosto. E como a minha opinião é minha (redundante, porém, necessário), eu gostei e muito! Agrada-me muito a arte de Brindisi.

Assim como o primeiro número, Dylan Dog – Manchas Solares, é uma HQ feita com esmero, pensada nos mínimos detalhes, desde a qualidade da prensa até a impressão gráfica que manteve a tendência em papel branco de altíssima qualidade, empenhada no tradicional formato italiano que tanto apreciamos. Vale ponderar também que, assim como na primeira, somos agraciados com uma excelente matéria produzida pelo Júlio Schneider em parceria com Adriano Lorentz. O aproveitamento físico da revista é inteligente e também ganha pontos na avaliação geral.

Obrigada, Editora Lorentz: por sua culpa pude ter o prazer de conhecer o nosso investigador do pesadelo e hoje, se estou virando fã, é por total responsabilidade sua J.

Que venha Mater Morbi!!